Edward Said - inspiração da nossa causa e de muitas outras

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A necessidade de criação do ICArabe nasceu, em grande parte, após a morte do escritor palestino Edward Said, ocorrida em 24 de setembro de 2003, ícone da resistência cultural e política para os árabes e para todos que lutam por justiça e igualdade. Na época a Folha de S. Paulo publicou um artigo a respeito, assinado por Nelson Ascher, que continha um tom desrespeitoso e agressivo direcionado ao intelectual (Veja o Manifesto dos 187).

No dia 11 de dezembro daquele ano, por uma iniciativa da SBPC-Reg. São Paulo e do Instituto Jerusalém do Brasil, foi realizado no Club Homs, na capital paulista, um ato em homenagem a Said. Marcaram presença no local mais de 60 entidades da sociedade civil e o auditório foi lotado com mais de 200 pessoas.

Durante o evento, os intelectuais Emir Sader, Aziz Ab´Saber, Marilena Chauí, Francisco de Oliveira, Ricardo Antunes, Francisco Miraglia, Mohamad Habib, Milton Hatoum, Ligia Osório, Mamede Jarouche, José Arbex Jr., Jacob Gorender, Ivana Jinkings, Gilberto Maringoni prestaram um tributo a Edward Said.

Said era um intelectual público que não hesitou em intervir para defender ideias, valores e principalmente a causa conhecida como Questão Palestina. Como crítico literário e sociólogo da cultura, ele se tornou conhecido pelo seu livro Orientalismo, onde demonstrou que no Ocidente a imagem dos orientais, especialmente dos árabes, foi construída para legitimar sua supremacia. Said foi um grande defensor das legítimas aspirações do povo palestino de viver em paz e com independência na sua terra. Ao mesmo tempo defendia também esse direito aos judeus. Sua vida foi um exemplo para todos os que lutam contra os opressores, por uma nova ordem mundial, mais solidária e com mais esperança (Saiba mais sobre a obra e vida de Edward Said nos links no fim da página).

 

Do ato, um livro

Edward Said – Trabalho Intelectual e Crítica SocialDois anos após o Ato, no dia 13 de dezembro de 2005, foi organizado e lançado pelo ICArabe, em parceria com a Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, o livro “Edward Said – Trabalho Intelectual e Crítica Social”, no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo. Mais de 250 pessoas participaram do evento. A publicação reúne artigos de diversos intelectuais que participaram do Ato em homenagem ao intelectual. 

 

 

Leia abaixo o discurso feito em nome do ICArabe por Soraya Smaili, na época presidente do Instituto, no dia do lançamento do livro. Na sequência estão palavras de Mariam Said, esposa de Edward Said, que impedida de comparecer ao evento, enviou-as especialmente para a ocasião.

 

Boa noite a todos e todas

Por muitas razões hoje é um dia de celebração para nós. Celebramos Edward Said, sua vida, sua obra e luta pela causa palestina e pelos árabes. Celebramos o intelectual e ativista, mas também celebramos o entusiasmo e a iniciativa coletivos.

Há dois anos, em setembro de 2003, falecia o ativista e expoente da intelectualidade Edward Said, após uma longa jornada de luta contra a leucemia. A morte de Said provocou inúmeras reações de tristeza e de comoção pela perda do intelectual pleno e pacifista inconteste.

A morte de Said terminou por nos mostrar uma outra realidade também dolorosa : o quanto estávamos despreparados frente aos ataques e às injustiças. Mas essa constatação foi seguida de uma reação, onde imediatamente, por iniciativa de Ivana Jinkings, Emir Sader e Daniela Morreau, teve lugar o manifesto em honra a Said e que foi assinados por muitos dos mais expressivos intelectuais brasileiros. Foi o primeiro sinal de que algo especial estava por acontecer e que teria a força da organização coletiva.

Por sugestão de Emir Sader e com iniciativa da SBPC-SP e do Instituto Jerusalém do Brasil, iniciamos a organização de um Ato em homanagem a Said que, embora tenha começado pequeno, terminou de grandes proporções. Ocorrido em dezembro 2003, contou com as presenças generosas e os pronunciamentos brilhantes de Jocob Gorender, José Arbex Jr., Gilberto Maringoni, Milton Hatoum, Chico de Oliveira, Ricardo Antunes, Lygia Osório, Mamede Jarouche, Ivana Jinkings, Chico Miraglia, Mohamad Habib, Aziz Ab`Saber, Marilena Chauí e Emir Sader.

Sobre o Ato em si, não é necessário dizer muito, basta apreciar a beleza de produção intelectual contida no volume que lançamos hoje. Os artigos, de uma complexidade e riqueza, são um verdadeiro convite não só à leitura das obras de Edward Said, mas ao universo do intelectual no seu verdadeiro papel de reflexão e questionamento. Para completar acrescentamos à produção os artigos de Arlene Clemesha, Ali el-Khatib, Leujeune Mato Grosso e Paulo Farah, com Capa do artista plástico Gershon Knispel. 

Hoje, dois anos depois da morte de Said, podemos dizer que este livro não é só grandioso pelo registro histórico da homenagem feita a ele. Ele representa o marco histórico do nosso movimento e da nossa organização pela criação de um Instituto da Cultura Árabe, proposta feita naquele dia por Francisco Miraglia e que elucidou o nosso desejo intrínseco de uma organização que divulgasse a Cultura Árabe em todos os seus aspectos universais, de tolência e de humanismo. A possibilidade da criação deste instituto acendeu a chama da nossa dignidade.

 Após algumas reuniões com um grupo grande de pessoas que crescia e se entuasmava com essa inspiração inicial, fundamos o Instituto da Cultura Árabe em Novembro de 2004 com a realização do I Ciclo de Debates sobre a Cultura Árabe, no TUCarena.  De lá para cá realizamos vários debates, palestras, ciclo de cinema, teatro, música e iniciamos a veiculação periódica de informação de qualidade através do nosso Correio semanal. Por isso hoje, celebramos tantas coisas, representadas não só pela memória de Edward Said, mas pela nossa capacidade de organização e de luta.  E não poderia ser diferente para representar o que foi Said, a diversidade, a intelegência, a coragem, a sensibilidade e a perseverança. De fato, Said representa os valores mais elevados desta Cultura, que ele admirava e elevava.

Para atingirmos o conjunto de celebraçòes que realizamos nesta noite contamos com muitos apoios, em especial ressaltamos:


Para a vida das pessoas que participaram deste trabalho e contribuíram para que este livro pudesse acontecer, Edward Said tem um simbolismo por uma diversidade de fatores. Durante a sua vida, lemos os seus artigos e olhamos para ele como um exemplo de perseverança. Mas não sabíamos que a sua trajetória teria uma ação determinante na nossa organização cultural e na nossa expressão intelectual mais ativa.

Como a vida e obra de Edward Said, como o Ato em sua homenagem, este livro representa o trabalho de muitos e é a expressão mais pura da beleza e da força de um trabalho coletivo.

 

“Acho que o que eles querem é o meu silêncio, mas até a minha morte isso não vai acontecer”.
Edward Said

 

Algumas Palavras e um olhar sobre Edward Said

Edward Said foi um Palestino, um Árabe que cresceu no Mundo Árabe e foi educado nas melhores escolas e Universidades nos EUA. Ele graduou-se em Literatura Inglesa e posteriormente escreveu sua tese de doutorado sobre Joseph Conrad. A carreira de professor de Said iniciou-se em 1963 na Columbia University, onde ele ensinou várias gerações de estudantes provenientes de diferentes locais e países. Quando morto em 2003, seu título na Universidade era o de “University Professor”, o mais alto grau concedido na Columbia University.

Edward também foi um intelectual proeminente e foi um crítico literário e de música de grande distinção e mérito, o que resultou na autoria de vários livros em diferentes tópicos da literatura à filosofia, da política à música. Ele escreveu sobre esses assuntos em seu livro “Out of Place”(no Brasil traduzido como “Fora de Lugar”), uma memória onde descreve o universo da sua infância. Neste livro, ele relembra como a sua curiosidade intelectual foi despertada por um de seus professores na Escola Mount Hermon, nos EUA.

Como um professor, Edward passou sua vida desafiando e provocando seus estudantes e leitores a despertarem suas “faculdades crítica e imaginativa” e instigarem nos “processo complexo da descoberta intelectual (e da auto-descoberta)”. Ele queria que eles buscassem os seus territórios intelectuais da maneira que ele tinha feito. Eu me lembro de ter recebido as condolências de um de seus estudantes, onde este me descrevia como Edward ativou o melhor de suas abilidades intelectuais. Naquela ocasião o estudante apresentou um tema bastante complexo e dificil para sua tese de doutorado e Edward ficou entusiasmado também com o desafio. No entanto, o estudante não conseguia decifrar o problema e quanto mais estudava, mas dificil se tornava o problema. Desesperado, o estudante procurou Edward, explicou suas dificuldades e Edward iniciou uma série de perguntas. Após uma hora de discussão, o tópico ficou perfeitamente claro para o estudante e Edward possibiliou a abertura para um novo horizonte e perspectivas de pensamento, o que resultou em uma tese muito bem sucedida.

Edward também costumava desafiar-se da mesma forma em seus estudos e elaborações. O seu mais famoso trabalho “Orientalismo” revolucionou muitas disciplinas, pois abriu numerosos territórios intelectuais e levou ao estabelecimento de uma disciplina de “Colonial and Post Colonial Studies”.  Em seu último livro “Humanism and Democratic Criticism”, finalizado pouco antes de sua morte e publicado postmortem em 2004, sintetiza as suas estimulantes idéias e mostra o humanista que era.

A sua capacidade crítica e imaginativa e o processo de descoberta foi amplamente aplicada nos seus escritos políticos. O envolvimento político de Said teve início durante a guerra do Viet Nam e após a guerra Árabe-Israelense de 1967. A maior parte de seus escritos foram sobre a questão e a luta do povo Palestino. Como um Americano de origem Árabe-Palestina, ele articulou a questão palestina com outras causas do Ocidente onde havia opressão e colonização”, ou seja, “os que lutavam por ter uma vida descente.”

Como a sua educação formal foi inteiramente ocidental em termos ideológicos, ele teve que se reeducar e este processo ajudou-lhe a utilizar estes pensadores e escritores para interpretar a causa palestina. Entre estes escritores estão Franz Fanon, Aime Cesaire, Amilcar Cabral, Walter Rodney, Howard Zinn, Martin Bernal e Noam Chomsky. Entre os seus amigos mais ativistas estão Eqbal Ahmad, Ibrahim Abu Lughod e Noam Chomsky com os quais ele discutia suas visões políticas.

Edward acreditava que a maior esperança estava na interação e por isso ele e seu amigo, Daniel Barenboim, estabeleceram o Divan Oriente Ociente, em 1999. Este Diwan era uma espécie de workshop de música ocidental tocada por taletosos músicos do Mundo Árabe e de Israel. Este projeto envolve instrução musical, performance orquestral e discussões intelectuais. Sobre este projeto Edward disse :

“No nosso trabalho, planejamentos e discussões, o nosso princípio central é que a separação entre os povos não é solução para os problemas que dividem as pessoas. Cooperação e coexistência pode ser feita através da música da forma como nós temos feito e vivido. Eu estou repleto de otimismo apesar do céu escuro e da situação de aparente falta de esperança do momento que nos cerca a todos”

No documentário “Edward Said, the last interview”, Edward conclui a entrevista com uma discussão sobre a situação na Palestina. Ele fala sobre a complexidade e resistencia, das dificuldades do conflito, da ocupação opressiva. Ele discute o papel do  intelectual, da música, da história da partilha e como isso criou mais problemas do que soluçòes. Neste documentário ele conclui que a única maneira de solucionar o conflito será criando igualdade, permitindo cidadãos independentemente de suas origens étnicas ou religião, que tenham direitos iguais sobre a mesma terra. Sobre este assunto ele escreve no livro “The Question of Palestine”, onde ele discorre sobre a formação de um Estado binacional, onde um povo teria que admitir a existência do outro. No filme, quando o entrevistador pondera que isso parece mais uma utopia, ele responde “Olhe para a alternativa”.

Edward ainda nos leva a nossa intelectualidade a novos territórios. Ele nos apressa a pensar criativamente e em novas maneiras sobre a Questão Palestina. Ele continua a nos lembrar que nós temos que assumir riscos intelectuais pois a chances de sucesso são maiores do que se imagina. Edward e Daniel assumiram este risco e um primeiro passo nesta direção foi iniciar um projeto de educação musical. Edward nos chama a continuar nessa direção através de seus estudantes, leitores e ouvintes. Nós temos que continuar.

Edward Said, o professor, o acadêmico e o intelectual, acreditou que o criticismo e o dissenso são saudáveis. Eu os deixo com essa esperança. Manter a sua memória viva é manter Edward Said vivo.


Mariam C. Said

 

Saiba mais nos links abaixo sobre a vida e obra de Edward Said, além de atividades do ICArabe relacionadas o intelectual:

Simpósio “Orientalismo – 30 anos”

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O encontro foi resultado de uma iniciativa conjunta do Instituto de Cultura Árabe e da Universidade de São Paulo, com a participação do Departamento de Línguas Orientais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas;do Programa de Pós-Graduação Língua, Literatura e Cultura Árabe; da Associação dos Docentes e também do Centro Universitário Maria Antonia.

O Núcleo de Estudos Edward Said, do ICArabe – Instituto de Cultura Árabe (www.icarabe.org), celebrou os 30 anos da publicação da principal obra deste célebre intelectual, Orientalismo, com a realização de um simpósio no Centro Universitário Maria Antônia, em São Paulo, durante os dias 29, 30 e 31 de outubro de 2008. A participação foi aberta ao público e gratuita.
 
O evento debateu como as idéias de Said continuam inspirando novas apreciações e análises ao redor do mundo. Em Orientalismo, o autor demonstrou – pela primeira vez e de forma sistemática – que o que se convencionou chamar de Oriente reflete uma construção intelectual, literária e política do Ocidente, como meio deste ganhar autoridade e poder sobre o primeiro.

Como explica o diretor do Conselho Cultural e Artístico do ICArabe e coordenador deste simpósio, Francisco Miraglia: "o Instituto, cumprindo suas finalidades, teve a iniciativa de organizar este seminário, juntamente com seus parceiros, para indicar a importância do pensamento de Edward Said para a compreensão do que está ocorrendo no mundo atual. Em particular, ao longo dos três dias de evento, foi explicitada a análise rigorosa feita por Said sobre a dependência do saber erudito aos interesses políticos e econômicos hegemônicos”.

Ao demonstrar que na base do pensamento racionalista do século XIX está a criação identitária que opõe Ocidente a Oriente, a obra de Said tem instigado a própria renovação dos conceitos fundamentais das mais diversas disciplinas humanistas. Onde se percebe que o rigor e a suposta neutralidade axiológica têm sido decisivamente influenciados pelos interesses econômicos e políticos da sociedade produtora dos conceitos e métodos de trabalho que embasam essas disciplinas.

Soraya Smaili, presidente do ICArabe, diz: "Said é um intelectual universal e não apenas dos árabes. O Orientalismo e toda a sua obra evidenciam-se atuais a cada dia. Said é um exemplo de intelectual engajado e por isso tantos estudiosos brasileiros têm se reunido para discutir e debater sua obra. Neste contexto, o simpósio “Orientalismo – 30 Anos" surgiu como mais uma oportunidade para o contato com o conhecimento por ele produzido”.

Além de trazer uma rica programação e temas fundamentais para serem discutidos por membros de governo e acadêmicos das principais universidades brasileiras (veja quadro abaixo), a programação de “Orientalismo – 30 Anos" incluiu também a exibição do filme Conhecimento é o Início (Knowledge is the Beginning – Alemanha – 2006), com direção de Paul Smaczny.

O vídeo-documentário mostrou como o encontro entre o maestro e pianista judeu Daniel Barenboim e o intelectual palestino Edward Said rendeu belos frutos: a Orquestra Ocidental-Oriental de Divan – formada por músicos de 14 a 25 anos oriundos do Egito, Israel, Jordânia, Líbano, Síria e Tunísia.

“A escolha deste filme para integrar a programação de ‘Orientalismo – 30 Anos’ se dá não apenas pelo fato de Conhecimento é o Início ser um belo filme; mas – fundamentalmente – por traduzir o que era o projeto de Said”, explica Arlene Clemesha, diretora do Conselho de Relações Nacionais e Internacionais do ICArabe.

E conclui: “Conhecimento é o Início mostra o exato momento em que Said coloca em prática o seu ideal, o ideal do fim da divisão entre os povos do mundo e – neste caso específico – o fim da divisão entre árabes e judeus”.

Carlos Calil, do Departamento de Cinema da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo e Secretário Municipal de Cultura de São Paulo, compôs a mesa de debate sobre o filme Conhecimento é o Início, atividade que fechou a programação do debate “Orientalismo – 30 Anos”. 

Veja a programação que ocorreu no evento:
 
Dia 29/10: Edward Said e o lugar da crítica ao orientalismo nos estudos humanistas
 

 
Dia 30/10: O orientalismo e os orientes

 
Dia 31/10:
Projeção do filme "O Conhecimento é o Começo" (Dirigido e produzido por Paul Smaczny, 93 min). Seguido de debate com:

Coordenação: Arlene E. Clemesha, Francisco Miraglia, Márcia Camargos
Comissão Organizadora: Arturo Hartmann Pacheco, José Farhat, Isabelle Somma, Soraya Misleh, Márcia Camargos, Natália Nahas, Safa Jubran, Michel Sleiman, Daniela Wasserstein (Festival de Cinema Judaico).

Apoio Cultural: Brasilprev e Instituto do Sono

 

Quem foi Edward Said

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Nossa história cultural jamais conheceu um gênio comparável a Edward Said, tão múltiplo, tão singular

Mahmoud Darwish*
Le monde Diplomatique NOV/2003

Edward Said tornou-se um dos pais

simbólicos da nova Palestina

Não consigo fazer minha despedida de Edward Said, pois sua vida continua presente em todos nós e no mundo.

Nossa consciência e nosso embaixador no mundo, Edward Said, que jamais se entregou na luta de resistência à nova ordem mundial em defesa da justiça, do humano e na partilha das civilizações e das culturas, entregou-se à morte, num combate longo e absurdo.

Foi heróico durante os doze anos de seu corpo-a-corpo com a doença. Foi heróico em sua permanente renovação de criatividade na literatura, na música, na crônica da vontade humanista, na busca vital do sentido e da essência, no convite do intelectual ao rigor.

Pergunte a qualquer palestino qual a pessoa que é seu maior motivo de orgulho e ele responderá espontaneamente: Edward Said. Nossa história cultural jamais conheceu um gênio comparável a Edward Said, tão múltiplo, tão singular. Hoje, e até nova ordem, ele continuará sendo o pioneiro que levou o nome de sua terra do domínio da política para o da consciência cultural universal.

Nossa perda é partilhada, mas nossas lágrimas são únicas, pois Said levou a Palestina ao coração do mundo. Se foi a velha Palestina que lhe deu vida, por sua fidelidade aos valores da justiça, tão ultrajados em sua terra, por sua defesa do direito dos filhos da Palestina à vida e à liberdade, Edward Said tornou-se um dos pais simbólicos da nova Palestina.

Sua abordagem do conflito era cultural e ética e ele defendia o direito sagrado de seus irmãos à resistência, que também considerava um dever nacional e moral. Edward Said era um todo indissociável. Encontravam-se nele, sem nunca se misturarem, o homem, o crítico, o pensador, o músico e o político.

Dono de uma personalidade carismática, era mundialmente conhecido e reconhecido como único, de tão raro que é ver reunidos o intelectual e a estrela, o homem elegante e o eloqüente, o profundo, o feroz, o meigo, o esteta da vida e da língua. Neste difícil adeus, rebelde à sua ausência, o universo converge para a Palestina num instante raro: desconhecemos os nomes dos pais da vítima, pois,

de agora em diante, sua família é o mundo. Nossa perda é partilhada, mas nossas lágrimas são únicas, pois Edward Said levou a Palestina ao coração do mundo e o mundo ao coração da Palestina.

(Trad.: Jô Amado; traduzido do árabe para o francês por Elias Sanbar)

Edward Said - Obra

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Nossa história cultural jamais conheceu um gênio comparável a Edward Said, tão múltiplo, tão singular

Mahmoud Darwish*
Le monde Diplomatique NOV/2003

O último livro de Edward Said
acaba de ser lançado no Brasil


FREUD E OS NÃO-EUROPEUS
Lançamento-Debate : SAID E OS NÃO-EUROPEUS

Debatedores: Maria Rita Kehl, José Arbex Jr. e Paulo Daniel Farah

Moderação: Arlene Clemesha

Debate sobre o livro Freud e os não-europeus, de Edward W. Said, última obra do intelectual palestino e um dos maiores militantes pela paz no Oriente Médio. Lançado no Brasil pela Boitempo um ano após a sua morte, o texto parte de uma suposição do pai da psicanálise, Sigmund Freud – ele próprio de origem judia e ateu –, de que Moisés não era judeu e sim egípcio.

Promoção: Instituto da Cultura Árabe e Boitempo Editorial

Título: Freud e os não-europeus

Autor: Edward W. Said

Introdução de Christopher Bollas e comentários de Jacqueline Rose

Prefácio: Joel Birman

Tradução: Arlene Clemesha

Edward Said na imprensa

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Um artigo e um abaixo-assinado provocam debate no Brasil sobre o papel público do intelectual

O início

Assim começa o debate: o artigo ‘Edward Said (1935-2003)’, do crítico e poeta Nelson Ascher, é publicado em 29 de setembro no jornal Folha de S.Paulo. Fazia menos de uma semana que Said havia morrido, em Nova York.

Ascher argumenta que Said – por seu engajamento – introduziu no meio acadêmico um parâmetro falho de análise sobre sociedade e cultura: o de avaliar pessoas e trabalhos não por suas aptidões, mas por inclinações políticas. Desse modo, a influência intelectual de Said seria avassaladora e perniciosa. No começo de sua crítica, ele escreve: “Said deve sua reputação a ter se tornado o mais articulado defensor

da ‘causa palestina’, algo que nada tinha de difícil se considerarmos que seus competidores nessa área, quando não estão ocupados explodindo ônibus escolares ou pizzarias, satisfazem-se divulgando falsificações anti-semitas. Ainda assim, sua dança acadêmica dos sete véus, sobrepondo camadas de jargão marxista, antiimperialista e pós-colonial, jamais ocultou que seus objetivos eram idênticos.”

Como o debate começa No dia 4 de outubro é manifesta uma breve resposta, no mesmo jornal, que exprime: “O artigo do sr. Nelson Ascher, a pretexto de comentar a morte de Edward Said, é uma ofensa a todos os que alimentam, como fez o intelectual palestino durante toda a sua vida, a esperança de ver israelenses e palestinos conviverem em paz, com justiça. O escrito é uma baixeza deliberada e covarde, que merece repúdio, e não resposta.”

Ela é assinada por Antonio Candido, José e Guita Mindlin, Francisco de Oliveira, Arnaldo Antunes, Celso Furtado, Roberto Schwarz, Marilena Chaui, Emir Sader, Raduan Nassar, Ruy Fausto, Milton Hatoum, Paulo Arantes, Davi Arrigucci Jr., Fábio Konder Comparato, Fernando Novais, João Manuel Cardoso de Mello, Anna Mariani, Monique Gardemberg, Jacob Gorender, Renina Katz, Liana Aureliano, Ricardo Antunes, Luiz Gonzaga Belluzzo, Paulo Sergio Pinheiro, Carlos Nelson Coutinho, Maria Victoria Benevides, Flávio Aguiar, Ana Luisa Escorel, Francisco Foot Hardman, Maria Rita Kehl e mais 156 assinaturas.

O manifesto, com 187 nomes, foi organizado por um coletivo de pessoas, entre elas, Daniela Moreau, Ivana Jinkings, Liana Aureliano e Milton Hatoum, que combinou diferentes altercações até a publicação do texto final.

Argumentações morais e intelectuais Para Ascher, como disse à CULT, a publicação do texto foi propícia para expor determinadas idéias sobre Said. O que ele tinha a dizer julgou que “poderia fazê-lo naquele espaço preciso, naquelas circunstâncias e manifestando exatamente

aqueles pontos de vista”. Entre eles, o de que Orientalismo, o livro mais conhecido de Said, “é uma diatribe confusa, desinformada e raivosa que se resume na aplicação a um caso particular da tese genérica de acordo com a qual intelectuais são, em sua maioria, lacaios da classe dominante”.

Ascher termina sua discussão afirmando que “as verdadeiras vítimas de suas idéias (de Said) foram antes seus conterrâneos (palestinos), que ele ajudou a conduzir rumo a novos desastres”. Reside aí um pouco mais do que desacordo. O debate se encontra deslocado do campo intelectual, estimulando assim a polêmica. “Não julgo ter autoridade para falar sobre a obra de Said, embora tenha lido uma quantidade razoável de seus artigos, mas Ascher foi ofensivo. Disse para os meus amigos que infelizmente agora, aos meus 77 anos, não daria para escrever sobre o Ascher no dia seguinte à morte dele”, ironiza Michel Rabinovitch, cientista na área de parasitologia e um dos assinantes do manifesto.

Embora discorde do texto final do manifesto, pois considera algumas passagens como ataque pessoal, o bibliófilo José Mindlin complementa a opinião de Rabinovitch: “Mantenho minha restrição ao conteúdo e à forma do artigo que Ascher publicou. É de se esperar o momento em que a razão supere a paixão, só assim será posto fim à atual escalada de violência que assola a região e vem vitimando tantas pessoas inocentes de ambos os lados.”

A desqualificação da obra e da figura pública de Said é repugnada, também, pelo economista Emir Sader, que afirma ser este “um artigo de infâmias, sem argumentos, revelando que seu autor não possui nenhum estofo intelectual para polemizar”. Sem interesse no debate oral com Ascher, a antropóloga Betty Mindlin conta que participou dessa resposta coletiva como forma de expressão de respeito e admiração pelos escritos de Said. “O drama dos palestinos nos sensibiliza. Ler a sua autobiografia, seus ensaios sobre a questão palestina, Orientalismo ou Cultura e política parece- me um passo para a análise, para reflexões que levem ao entendimento e à paz.”

O que se debate dentro e fora do campo intelectual Em sentido oposto à sua intenção, a de promover a paz pela igualdade como um valor intelectual, os textos de Said – especialmente os relacionados ao Oriente Médio – foram vistos como apelo à violência. Por um lado, como explica Sader, pela influência provocada pelas teses do Orientalismo, “que revolucionaram a forma de pensar o Oriente e o Ocidente, com toda sua conotação eurocentrista e apoiado numa sólida argumentação”.

Partilhando de análise semelhante, Milton Hatoum reitera: “Os ataques infames e covardes contra ele e sua obra datam da publicação do Orientalismo e até hoje não cessaram. O que realmente incomoda os fanáticos de extrema direita é a sua crítica consistente ao sionismo ultraconservador e ao Estado de Israel no que diz respeito à questão do povo palestino.

Said nunca criticou os judeus nem escreveu uma única linha contra esse povo. Ao contrário, ele costumava assinalar que os palestinos eram vítimas das vítimas.” As críticas a Said, como se observa, não se resumem à esfera intelectual – não apenas no caso de Ascher –, mas por causa das posições dele na questão do Oriente Médio, em particular da Palestina. “Reivindicava o direito a um Estado por parte dos palestinos, denunciava o papel do lobby sionista nos EUA, desqualificando esse país como mediador no conflito, fez a denúncia dos acordos de Oslo, assim como a vindícia de um Estado binacional”, examina Sader.

De fato, ele não se prendeu às questões circunscritas ao (seu) universo da literatura. Intelectual comprometido, pensava que se deveria penetrar na consciência israelense com tudo o que estivesse ao alcance. “Falar ou escrever para israelenses quebra o tabu deles em relação a nós. Foi esse medo de ser interpelado pelo que sua memória coletiva suprimiu que desencadeou todo o debate sobre ler literatura palestina. Tabus e proibições não devem reger a vida real”, escreveu ele em Paralelos e paradoxos, com o músico e maestro de origem judaica Daniel Barenboim.

O papel público de escritores e intelectuais O sociólogo Francisco de Oliveira (também assinante do manifesto) acredita que a posição de Said foi como a de Hannah Arendt, “a de ultrapassar o limite do nacionalismo para chegar à compreensão do outro, no caso dele, Israel, e no caso de Arendt, a condição judaica, para entender os árabes e mais além”. Segundo ele, isso é o que faz um intelectual. A colocação de Oliveira põe em debate outra questão que perpassa não apenas a obra de Said, mas o evento cultural ocorrido a partir da crítica de Ascher.

Qual é, então, o papel público dos intelectuais e dos escritores?

Ascher responde: “Eu diria que há de fato dois modelos: um europeu e, em parte, hispano-americano, e outro, anglo-saxão. De acordo com o primeiro, os intelectuais, quer dizer, escritores, poetas, mas também atores, cantores, professores etc. desempenham, de certa forma, um papel privilegiado na sociedade, ou seja, eles são a vanguarda do saber ou algo assim. Talvez isso tenha a ver com analfabetismo, catolicismo, sociedades escravagistas etc. De acordo com o segundo modelo, todo e qualquer cidadão é tão cidadão quanto qualquer outro: o rei não mais que o súdito, o escritor não mais que o analfabeto. Eu entendo quanto seduz os intelectuais a idéia de que eles têm algo diferente, qualitativamente melhor, a dizer, mas, em última instância, minha posição é populista, ou seja, a Sebastiana doméstica e o Mané da flanelinha têm tanto direito a opinar sobre a condição da coisa pública quanto eu, o doutor, o mestre, o prêmio Nobel etc.”

Said compartilhava, em termos, de opinião semelhante à de Ascher. Acreditava que igualdade seria princípio como valor intelectual. E, ao afirmar que as chances de reprodução digital desordenavam a idéia de um público (perante a existência de um público virtual), permitindo assim um menor domínio dos regimes e das censuras, Said incluía em sua análise que o fato de escrever num espaço expandido (a presença da Internet) teria outras conseqüências. O papel do intelectual seria o de elucidar e derrotar tanto o silêncio imposto quanto o silêncio conformado, levando em conta o lugar social do discurso: “Para um intelectual norte- americano, a responsabilidade é bem maior”.

Ascher somente situa que o texto deve se sustentar por sua própria lógica ou coerência interna. “Não são meus diplomas ou livros publicados que me legitimam, mas minha capacidade ou falta de capacidade de falar coisa com coisa e de fornecer insumos para que meus leitores pensem, não concordando ou discordando necessariamente do que digo.” Ascher ao fazer crítica a Said, no entanto, identificou obra e autor, não se detendo apenas na lógica do texto. “Said tornou-se, desde os anos 50, um norte-americano e beneficiou-se tanto dessa condição como da imagem romantizada de exilado para atingir o ápice do mandarinato universitário.” Ascher, por fim, afirma que o mercado livre de idéias decidirá quem tem o que dizer, quais as idéias, interpretações e propostas que fazem sentido – “quanto mais haja, melhor”.

Mas, para Said, a questão, e a postura, estão em outro território. Para ele, “parte daquilo que vemos como sendo atividade do intelectual é não apenas definir a situação, mas também discernir as possibilidades para intervenção ativa”. Um intelectual merece esse título quando está na esfera pública. Debatendo.

Manifesto dos 187

TRIBUTO A EDWARD SAID - 10/10/03

Contra a Folha de S. Paulo, 187 intelectuais brasileiros se unem em defesa de Edward Said.

O artigo do sr. Nelson Ascher publicado na Folha de S.Paulo de 29/09/2003, a pretexto de comentar a morte de Edward Said, é uma ofensa a todos os que alimentam a esperança de ver israelenses e palestinos conviverem em paz, com igualdade de direitos e na justa ocupação de território para ambos os povos. O articulista não argumenta, apenas acusa, revelando total ignorância sobre a obra vastíssima de Said, que engloba crítica literária e cultural, música, política e estética. Edward Said foi um intelectual que teve a coragem e a dignidade de dedicar grande parte de sua vida para minorar o sofrimento e a terrível humilhação do povo palestino. Nunca apoiou uma solução violenta para o conflito no Oriente Médio e tampouco menosprezou o sofrimento do povo judeu. O que Said sempre tentou mostrar, em vários livros e artigos, é que os palestinos, desde a criação do Estado de Israel em 1948, também têm de ser reconhecidos como um povo com direito a um verdadeiro País, e não a uma caricatura grotesca de Estado. O muro vergonhoso que está sendo construído neste momento, além de usurpar mais terra de um povo que já perdeu quase tudo, reitera a política de apartheid do atual governo israelense. Por isso, a atitude do colunista da Folha foi difamatória e vil, típica de quem alimenta idéias pré-concebidas e racistas. Falsear a história e caluniar, como fez Nelson Ascher, é um ato de extrema covardia para com a memória de Edward Said, considerado um dos intelectuais mais influentes das últimas décadas. Tal gesto também contribui para a obstrução da paz, no Oriente Médio e no mundo.

Amanhã (4/10/2003), a Folha deverá publicar o manifesto que vai abaixo. No entanto, seguindo critérios internos, apresentará somente quinze assinaturas. Mas nós sabemos que são em número muito maior os que não apenas admiram Said, mas pautam sua visão de mundo pela tolerância, respeito à diferença e repúdio às soluções bélicas. A atitude do sr. Ascher é em si coisa menor. Apenas espelha as piores atitudes daqueles que provocam e lucram com o sofrimento alheio. Fazemos aqui circular essa mensagem, com todas os seus signatários, para conhecimento do maior número possível de pessoas.

EM DEFESA DE EDWARD SAID

Sr. Editor,

O artigo do sr. Nelson Ascher publicado na Folha de S.Paulo de 29/09/2003, a pretexto de comentar a morte de Edward Said, é uma ofensa a todos os que alimentam - como fez o intelectual palestino durante toda a sua vida - a esperança de ver israelenses e palestinos conviverem em paz, com justiça. O escrito é uma baixeza deliberada e covarde, que merece repúdio e não resposta.

Agnaldo Farias
Alberto Martins
Alberto Schprejer
Alcione Araújo
Alessandro Giannini
Alice Kobayashi
Alice Ruiz
Alipio Freire
Aluizio Leite Neto
Ana Cristina Lopes Nina
Ana de Hollanda
Ana Luisa Escorel
Andréa Aureliano
Angel Bojadsen
Anna Mariani
Antonia Pellegrino
Antonio Candido
Antonio Carlos Kehl
Antonio Carlos Mazzeo
Antonio Miguel
Antonio Roberto Bertelli
Armando Boito Jr.
Arnaldo Antunes
Aurelio Michiles
Beatriz Resende
Benjamin Abdala Jr.
Betty Mindlin
Bia Lessa
Brasilio Sallum Jr.
Caio Navarro de Toledo
Carlos Alberto Drummond
Carlos Estevam Martins
Carlos Guilherme Mota
Carlos Nader
Carlos Nelson Coutinho
Catharina Epprecht
Celia Tolentino
Celso Furtado
Cesar Benjamin
Cláudia S. Bachi
Cláudio Salm
Claudio Vouga
D. Demétrio Valentini
Daniela Moreau
Danilo Cerqueira Cesar
Davi Arrigucci Jr.
Duarte Pereira
Eduardo Kugelmas
Eglê Malheiros
Eliane Alves de Oliveira
Emir Sader
Enid Yatsuda Frederico
Eveline Borges de Miranda
Fábio Konder Comparato
Fábio Weintraub
Fernando Novaes
Fernando Sarti
Flávio Aguiar
Flávio Rosa de Moura
Francisco Alambert
Francisco de Oliveira
Francisco Foot Hardman
Francisco Miraglia
Francisco Moreno Carvalho
Frederico Barbosa
Geraldo Di Giovanni
Gabriel Bolaffi
Gilberto Dupas
Gilberto Maringoni
Gisela Moreau
Guilherme Cavalheiro
Guilherme de Almeida
Guita Mindlin
Heloisa Fernandes Silveira
Hermano Viana
Horacio Costa
Isabella Marcatti
Iumna Simon
Ivan Marques
Ivana Jinkings
Jacob Gorender
João Bandeira
João Manuel Cardoso de Mello
Joaquim Guedes
Jorge Grespan
José Arbex Jr.
José Mindlin
José Luiz Niemeyer dos Santos Filho
Kim Jinkings
Leandro Sarmazt
Leda Paulani
Liana Aureliano
Lourenço Rebetez
Lucia Hauptman
Lucia Helena Gama
Luciano Trigo
Luena Nunes Pereira
Luis Costa Lima
Luis Roncari
Luiz Bernardo Pericás
Luiz Fernando Franklin de Mattos
Luiz Gonzaga Belluzzo
Luiz Tenório Oliveira Lima
Luiz Weis
Marcelo Backes
Marcelo Ridenti
Marcia Camargos
Marcio Bilharinho Naves
Marcos Del Roio
Maria Benigna Gervaiseau
Maria Elisa Cevasco
Maria Helena Guimarães
Maria Helena Salles
Maria Hermínia Tavares
Maria Hirszman
Maria José Berraque
Maria Lucia Montes
Maria Lygia Quartim de Moraes
Maria Orlanda Pinassi
Maria Rita Kehl
Maria Victoria Benevides
Marilena Chauí
Marilene Felinto
Marisa Grigoletto
Marli Fantini Scarpelli
Martin Cesar Feijó
Michel Rabinovich
Milton Hatoum
Milton Temer
Moema Cavalcanti
Mohamed Habib
Monica Rodrigues Costa
Monique Gardemberg
Nelson dos Reis
Nelson Schapochnik
Noemi Jaffe
Otilia Fiori Arantes
Pablo Gentili
Patricia Trópia
Paulo Arantes
Paulo Daniel Farah
Paulo Roberto Pires
Paulo Sergio Pinheiro
Paulo Silveira
Pierre Gervaiseau
Raduan Nassar
Rafic Farah
Raymond Rebetez
Renata Bueno Mellão
Renata Rosenthal
Renato Guimarães
Renina Katz
Ricardo Antunes
Ricardo Musse
Robert Stam
Roberto Leher
Roberto Schwarz
Rodrigo Vilella
Rosa Freire d'Aguiar
Ruth Lana
Ruy Castro
Ruy Fausto
Safra Juban
Salim Miguel
Samuel Titan Jr.
Sandra Guardini Vasconcelos
Sebastião Velasco e Cruz
Sergio Augusto
Sérgio Cardoso
Sergio Lessa
Sergio Miceli
Sílvio Rosa Filho
Sonia Bracher
Sônia Maria Draibe
Soraya Smaili
Sulamis Dain
Susie Arida
Suzana Veríssimo
Tânia Moysés
Taroub Rafiq Nahuz
Vinicius Dantas
Vinicius Martinelli Jatobá
Violeta Arraes
Vladimir Sacchetta
Wadih R. Haddad
Wagner Nabuco
Walnice Galvão
Zaba Moreau
Zenir Campos Reis

Remembering Edward Said (em inglês)

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Texto de despedida de Daniel Barenboim a Edward Said

Perhaps the first thing one remembers about Edward Said was his breadth of interest. He was not only at home in music, literature, philosophy, or the understanding of politics, but also he was one of those rare people who saw the connections and the parallels between different disciplines, because he had an unusual understanding of the human spirit, and of the human being, and he recognized that parallels and paradoxes are not contradictions.

He saw in music not just a combination of sounds, but he understood the fact that every musical masterpiece is, as it were, a conception of the world. And the difficulty lies in the fact that this conception of the world cannot be described in words—because were it possible to describe it in words, the music would be unnecessary. But he recognized that the fact that it is indescribable doesn’t mean that is has no meaning.

This very curious mind, of course, allowed him privileged glimpses into the subconscious of people, of creators. And added to that he had a very unrestrained courage of utterance, and this is what earned him the admiration, the jealousy, and the enmity of so many people.

Many Israelis and Jews did not want to tolerate his criticism, not just of the present Israeli government, but of a certain mentality that he identified in Israeli thoughts and deeds—namely the lack of empathy with the fact that the very same war of independence of Israel in 1948, which brought about the acquisition of a new identity for the Jewish part of the population, was not just a military defeat, but also a psychological catastrophe for the non-Jewish population of Palestine. And therefore he was critical of the inability of Israeli leaders to make the necessary symbolic gestures that have to precede any political solution. The Arabs, on the other hand, were and are still unable to accept his sensitivity toward Jewish history, limiting themselves to repeat their innocence as far as the suffering of Jewish people is concerned.

It was precisely this ability of his to see not only the different aspects of any thought or process, but their inevitable consequences as well and also the combination of human, psychological, and historical, as the case may be, “pre-history” of such thoughts and processes. He was one of those rare people who was permanently aware of the fact that information is only the very first step toward understanding. And he always looked for the “beyond” in the idea, the “unseen” by the eye, the “unheard” by the ear.

It was a combination of all these qualities which led him to found together with me the West-Eastern Divan, which provides a forum for young Israeli and Arab musicians to learn together music and all its ramifications.

The Palestinians have lost one of the most eloquent defenders of their aspirations. The Israelis have lost an adversary—but a fair and humane one.

And I have lost a soul mate.

Daniel Barenboim

Said, o Intelectual e a Causa

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COLUNA VISÃO – 2 DE OUTUBRO 2003

Said, o Intelectual e a Causa

Boa ventura de Souza Santos

Edward Said não era muito conhecido entre nós. De origem palestiniana, professor de literatura comparada na Universidade de Columbia e o intelectual mais destacado na defesa da causa palestiniana, morreu aos 67 anos em Nova Iorque, no passado dia 24 de Setembro, vítima de leucemia. A importância de Said decorre de uma combinação única entre perfil, obra e causa. Said era um intelectual público, uma categoria de intelectual em extinção.

O intelectual público é o profissional das ciências ou das artes que intervém fora do campo profissional, no espaço público, com o objectivo de defender ideias, valores, causas em que se revê como cidadão, consciente de que em tal defesa participam vários conhecimentos para além daquele de que ele é um profissional especializado. O intelectual público é um alvo fácil de críticas, quer por parte dos seus adversários políticos, quer por parte daqueles (às vezes, os seus melhores discípulos) para quem o intelectual se deve confinar ao campo intelectual, deixando a política aos profissionais da política. Pierre Bourdieu, outro notável intelectual público, também recentemente falecido, ilustra bem o que acabo de dizer. No caso de Edward Said, os ataques vieram dos conservadores norte-americanos, do lobby israelita e dos fundamentalistas islâmicos. Em 1999, a revista conservadora Commentary chamava-lhe “o professor do terror”. Porquê? Na resposta fundem-se a obra a causa.
Crítico literário e musical e sociólogo da cultura, Said é sobretudo conhecido pelo seu livro Orientalism, publicado em 1978. Influenciado por Foucault, Fanon e Levi-Strauss, Said defende que há uma relação profunda entre cultura e poder, de tal maneira que as representações culturais entre grupos sociais ou entre países reflectem as relações de poder que há entre eles. Quanto mais desigual é essa relação mais enviesada é a representação do mais poderoso a respeito do menos poderoso. Foi assim, segundo ele, que se criou no Ocidente a imagem dos orientais, e nomeadamente dos árabes, como sensuais, corruptos, preguiçosos, atrasados, violentos, em suma, perigosos. Nos dois últimos séculos esta imagem legitimou o poder do Ocidente sobre o Oriente, sobreviveu ao fim do colonialismo e continua hoje a ser o fundamento da política internacional sempre que estão em causa estas duas regiões geopolíticas e geoculturais. O exemplo mais dramático da sua vigência é o tratamento internacional do conflito israelo-palestiniano, a causa de Said.
Nas últimas três décadas, Said foi o mais lúcido defensor das legítimas aspirações do povo palestiniano a viver em paz e com independência na sua terra, ao mesmo tempo que defendia o mesmo direito para os judeus. Isso lhe valeu a hostilidade dos fundamentalistas de ambos os lados. Sempre se manifestou contra o terrorismo mas nunca deixou de afirmar que o terrorismo dos fortes, do Estado de Israel, era muito mais ignominioso que o terrorismo dos fracos, dos bombistas suicidas. Revoltava-se, como muitos de nós, contra a renda do Holocausto de que o Estado colonialista de Israel continua a usufruir no Ocidente para poder perpetrar os seus crimes contra populações civis inocentes e beneficiar da isenção de condenações e sanções que foram aplicadas a outros governos repressivos, como foi o caso da África do Sul. Morreu atormentado pelo muro da vergonha que vai separar famílias, campos de culturas e até universidades, como é o caso da universidade Al Quds. Talvez sem o saber, o presidente desta universidade ilustrou bem a tese do orientalismo ao afirmar: “vamos ficar divididos em jaulas e o único movimento permitido será entre jaulas, tal como no jardim zoológico”.