As transferências dos emigrantes representaram 5,6 bilhões de dólares em 2006*
Por Sibylle Rizk, Chefe de Redação
É conhecida de longos tempos, de forma intuitiva, a importância dos fundos transferidos para o Líbano por seus expatriados. Pela primeira vez, foram publicadas estatísticas numéricas para medir o fenômeno. São os frutos de um esforço do Banco Central. O governador [do BC] Riad Salamé desvendou recentemente o montante: o Líbano recebeu 5,6 bilhões dólares em 2006 sob a forma de remessas de seus emigrados. A maioria destas transferências (45%) vem do Golfo [Arábico] onde trabalham mais de 400.000 libaneses.
Este trabalho de avaliação permite medir o impacto destas transferências sobre a economia libanesa: as remessas representam 25% do PIB, um recorde mundial. Deve-se, de fato, relativizar esta cifra ao se calcular as transferências líquidas tendo em vista outra característica específica: o Líbano é um dos únicos países a exportar e a receber remessas de migrantes, em razão da importância da mão de obra estrangeira não qualificada que emprega. Em 2006, o saldo líquido das remessas representou 5,8% do PIB, ou sejam: 1,254 bilhões de dólares.
A idéia segundo a qual a diáspora libanesa é um dos ativos mais preciosos do país encontra assim a sua mais concreta materialização: ela é uma fonte maior de renda para o país (mais que o dobro das receitas das exportações). Ainda que a ligação não tenha sido estabelecida de forma científica, aí reside provavelmente a explicação do fenômeno evidenciado pela equipe encarregada de acertar as contas nacionais do Líbano para o período 1997-2004: a renda disponível no país é 20% mais elevada em média daquela que ele produz.
Estes fluxos são, sem qualquer dúvida, um fator decisivo em curto prazo do equilíbrio da balança de pagamentos. Eles têm um papel importantíssimo na lubrificação das engrenagens da economia libanesa e em evitar a emergência de crises sociais muito graves. As remessas dos emigrados permitem efetivamente financiar os custos habitacionais (5%), os gastos de escolarização e de cuidados médicos (24%), das compras de vestimentas e outras despesas diversas (5%).
Porém, orientando-se majoritariamente rumo às despesas de consumo (numa proporção de 56%), estas transferências contribuem de certa forma a acentuar em longo prazo os desequilíbrios que atenuam em curto prazo. De fato, a maioria das despesas de consumo não alimenta a dinâmica do crescimento interno, porque são direcionadas para a importação. Além disto, ao se tornar um componente exógeno estrutural da demanda local, as transferências dos emigrados provocam distorções de preço sobre os mercados locais os quais, por sua vez, induzem modificações na alocação dos recursos. Sendo duráveis os seus impactos, muitos países através do mundo procuram orientar tanto quanto possível este maná de forma a maximizar seus aspectos positivos e a minimizar os seus aspectos negativos. O Líbano começa apenas a se conscientizar disto.
*Versão especial para o Icarabe autorizada pela Revista e traduzida por José Farhat. Visite o site www.lecommercedulevant.com
O Dr. Hjalmar Schacht (1877-1970), estabilizador do marco após a I Guerra Mundial, mais de uma vez presidente do Reischsbank, ministro das finanças e encarregado dos programas de desemprego e rearmamento sob o regime nazista, tão logo foi absolvido pelo Tribunal Militar Internacional de Nürenberg, fundou seu próprio banco em Düsseldorf e passou a servir de consultor financeiro para diversos países. O governo libanês da época convidou-o para este fim e conta-se que após uma curta visita e preliminar análise das finanças libanesas, ele teria dito algo como “Um país cujos rendimentos invisíveis superam seus rendimentos visíveis, não precisa de mim para dar palpite em suas finanças” e recusou o contrato.
O diagnóstico do mago das finanças alemãs é, de certa forma, uma confirmação do artigo de Sibylle Rizk.
Um dia a realidade teria que vir à tona e foi o que fez o Banco Central do Líbano. As remessas nunca foram novidades para mim, por ter ouvido isto dos libaneses, parentes meus ou com os quais convivi durante decênios.
É impressionante o fato de que os ingressos dos expatriados libaneses representem 25% do PIB nacional, digno de nota é que o Líbano contribui com 19,2% de seu PIB para as finanças de outros países. Estas remessas para fora do Líbano chamam a atenção para três pontos: a mão-de-obra estrangeira executa serviços que os libaneses geralmente não prestam, ganha salários inferiores ao que ganhariam libaneses e contribuem marginalmente para a economia libanesa despendendo parte de seus ganhos no próprio país.
Não deixa de ser motivo de dúvida, no entanto, se os ingressos contabilizados pelo Banco Central do Líbano representam a totalidade do que chega ao Líbano; tenho minhas dúvidas. Conhecemos a nós mesmos para arriscar afirmar que os “rendimentos invisíveis” aos quais aludiu o Dr. Schacht devem superar, em muito, os números que passaram a constar nas contas do Banco Central. Tanto é difícil saber como o dinheiro sai da diáspora quanto como chega ao Líbano.
Outro fato novo a este respeito é que a origem das remessas deixou de serem prioritariamente as Américas e a África. A juventude libanesa mal se forma e corre para viver sob outros céus, apesar dos apelos de mães como Nada Nassar-Chaoul, cuja carta que escreveu a seu filho (que recolhi e guardei sem anotar a fonte) de nada adiantou, quando escreveu entre muitas outras lindas coisas: “Pelas noites de junho sobre o terraço de Zahlé, pela vinha de setembro que acaba nos oferecendo um cacho, pelas gardênias de maio, pelo cheiro molhado da terra após a primeira chuva, por esta noite em Baalbeck, por não ter frio, por não ter medo, por não viver só, por... por tua mamãe, Joseph, não parte não”. Joseph e todos eles partem, levando o Líbano no coração, e não tardará e começarão a fazer suas remessas, sempre pensando que voltarão um dia.



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