Algumas passagens sobre o poeta universal da identidade árabe
Declarado na Palestina, pela sua Autoridade Nacional, luto de três dias. Parece redundância, mas um lugar cheio de tristezas está mais triste. Morreu no último sábado, 9 de agosto, Mahmoud Darwish, poeta nascido em 13 de março de 1941, na aldeia de Barue, destruída em 1948. Darwish morreu devido a complicações em cirurgia que fez no coração, operação de risco que o autor resolveu encarar. No seu site oficial, o texto de homenagem diz que “quando decidiu encarar a difícil cirurgia pensamos que ele derrotaria a morte, como já fez várias outras vezes... mas ele, com seu insight profético, podia ver claramente seu ‘espírito vindo de longe’. Ele queria surpreender a morte em vez de esperá-la como a ‘bomba-relógio’ que era sua artéria, que podia explodir sem anúncio... ele foi preparado, como sempre esteve, nos deixando a ‘alimentar esperança’”*.
O escritor conjugou nas linhas de suas obras alguns dos sentimentos que acometiam árabes, mas se referiu a essa identidade construindo um discurso que falava a todos. Os obituários se espalharão, também a descrição de suas obras, linhas de seus poemas, as homenagens justas ao escritor. Fico aqui com breves descrições que dois diretores do ICarabe deram a respeito de sua obra.
Durante o curso “Panorama da Cultura Árabe”, em 2006, o secretário-geral do ICarabe e professor de árabe do Departamento de Letras Orientais, Michel Sleiman, e o jornalista e diretor de imprensa, José Arbex Jr., recorreram a ele.
O primeiro, em sua aula de poesia árabe, fez de Darwish um dos quatro pilares da explanação sobre a produção em língua árabe no século XX. Ao lado do sírio Ali Ahmad Said – Adonis -, do libanês Unsi al-Haj e do também sírio Nizar Qabani, foi um dos autores que marcaram uma nova fase da poesia em árabe contemporânea. Segue abaixo um dos trechos da aula de Sleiman, que lidos depois de dois anos, parecem ditos agora no calor da hora:
“O Darwish que deve ficar é aquele que aproveita a expressão de libertação para falar dos grandes temas da humanidade, que são a liberdade com ‘L’ maiúsculo, o amor e a separação do amante do amado. O amor pela terra como um lugar para gozar a vida até que a morte venha. São os temas de viver, de ter a liberdade e o direito à vida. Também, como o árabe que é, um ser que uma vez liberto do jugo que lhe impõem, particularmente Israel, e pensando o árabe como um palestino, é um homem que não tem necessariamente uma diferença em relação a um alemão ou a um africano. A preocupação de Darwish a todo o momento é mostrar que a liberdade do homem palestino deve ser assegurada não porque ele é palestino, mas porque ele é um cidadão do mundo, um ser humano. Isso incomoda. Incomoda muito mais dizer ‘quero minha liberdade porque sou ser humano’ do que dizer ‘quero minha liberdade porque você tomou minha terra, e eu sou palestino e você é israelense’”.
Arbex, no mesmo curso, discorreu sobre o tema do nacionalismo e da identidade árabes, segundo ele um dos temas mais complicados no corpo de estudos da historiografia contemporânea. Em sua análise do nacionalismo árabe do século XX, enxergou mesclados na realidade da política e das sociedades árabes “sentimentos possíveis de anti-imperialismo, uma idealização pan-arabista de raiz nasserista, um tipo de nacionalismo árabe inspirado em Michel Aflaq, a volta da grandeza do islã com uma prática ocidental e o fundamentalismo islâmico, com a volta aos fundamentos do Corão, como forma de redenção das sociedades árabe e islâmica”.
Em sua argumentação, ao delinear um raciocínio baseado em todos os conceitos acima, colocava em xeque o conceito de uma nação árabe, ou mesmo de uma identidade árabe para efeito de argumentação e problematização da questão. Na conclusão de sua aula, no entanto, se levanta e revela que leria um texto que, sob certo aspecto, desmentiria tudo que havia dito anteriormente. Leu o que segue**:
Registra
Eu sou árabe
Cinqüenta mil é o numero de minha carteira
Oito são meus filhos
O nono, chega depois do verão.
Você se irrita?
Registra
Sou árabe
Com os companheiros da luta, trabalho numa pedreira
Tenho oito filhos
Da rocha, arranco-lhes o pão, a roupa e o caderno
Não mendigo à sua porta
Não me curvo
Diante do mármore de sua soleira.
Isso o incomoda?
Registra
Sou árabe
Sou um nome sem sobrenome
Paciente numa terra que ferve de cólera.
Minhas raízes
Fincaram-se antes do nascimento do tempo
Antes do desabrochar das eras,
Antes de ciprestes e oliveiras
E antes do crescer da grama
Meu pai, da família do arado
Não de fidalgos nascera
Camponês era meu avô
Sem eira nem beira
Ensinou-me altivez do sol antes de ler livros
Minha casa, uma choupana de guarita
De paus e bambus
Minha condição o agrada?
Sou um nome sem sobrenome
Registra!
Sou árabe
Meu cabelo: negro
Meus olhos: castanhos
Traços distintivos:
Na cabeça, lenço amarrado
Minha mão, dura feito pedra
Arranha quem a tocar
Meu endereço:
Sou duma aldeia afastada, esquecida
De ruelas sem nomes
Seus homens, no campo e na pedreira
Isso o incomoda?
Registra
Sou árabe
E você roubou as videiras dos meus avôs
E a terra que eu arava,
Eu e todos meus filhos.
Deixaram para mim e para meus netos
Apenas estes rochedos
Seu governo vai tomá-los,
Como disseram?
Registra então
No cabeçalho da primeira folha:
Eu não odeio as pessoas
Não agrido ninguém
Mas se ficar com fome
A carne de meu usurpador, eu como
Cuidado!
Cuidado com minha fome!
* em www.mahmouddarwish.com
** O poema acima é “Carteira de Identidade”, de Mahmud Darwish, e a tradução foi feita por Safa Jubran, professora de árabe do Departamento de Letras Orientais da Universidade de São Paulo.
*Corrigido em 12 de agosto de 2008



