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Eleições no Egito: primeiro turno ocorre em clima de normalidade democrática

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“Nossa esperança é que o segundo turno ocorra com tranquilidade e que o povo egípcio mostre para os descrédulos do Ocidente que é um povo civilizado, que tem condição de viver em regime democrático, de ter eleições sem nenhuma ajuda dos incrédulos”, afirma o professor Murched Taha, Diretor de Relações Internacionais do ICArabe, sobre as eleições no Egito. Este foi o primeiro pleito após a queda do governo de Hosni Mubarak, resultante dos levantes populares.

Na dianteira pela disputa à Presidência do Egito aparece o candidato da Irmandade Muçulmana, Mohammed Mursi. Ahmed Shafiq, o outro postulante ao cargo, é ex-primeiro-ministro de Mubarak. Na opinião do professor Taha, um retorno do governo deposto seria a maior preocupação dos egípcios no momento. “Do ponto de vista político, se voltar o Shafiq ao poder, será um retrocesso em relação a tudo o que ocorreu no Egito, nos últimos 14 meses, com a revolução. Para mudança do status quo vigente nos últimos anos no Egito e no mundo árabe, eu votaria no Mursi.”

Outro fator considerável, além do receio da população em relação à volta do antigo governo, é a capacidade administrativa dos dois candidatos. Para Murched, há uma preocupação da população pelo fato de a Irmandade Muçulmana ter menos experiência de governar do que Shafiq, que já esteve no poder: “Eles [a Irmandade] assumiram agora a Presidência do Parlamento por serem o partido que fez mais deputados. Mas, se assumem a Presidência da República, estão entrando em um mundo novo, do ponto de vista administrativo”, ressalta.

No entanto, isso não seria suficiente para levar o ex-primeiro-ministro de volta ao governo: “Eu sinceramente ficaria surpreso com a vitória do Shafiq, mesmo ele tendo mais experiência. Vão se juntar à Irmandade todos os outros partidos que foram derrotados. Entre os que ficaram entre os cinco primeiros colocados, estão ligados ao antigo governo apenas Amr Moussa (ex-ministro de Relações Exteriores de Mubarak entre 1991 e 2001) e Shafiq. Então pode haver essa polarização desses dois partidos com os outros três. Por isso, eu vejo as chances do Shafiq mínimas. Agora, se ele ganhar, podem ocorrer distúrbios, mas se é a vontade popular, tem de ser aceita.”
 
Shafiq, dinheiro e exército

Para o professor Taha, há dois fatores a favor do ex-primeiro-ministro: financeiro e militar. “Haverá muito dinheiro no segundo turno, como ocorreu no primeiro, para que a eleição de Shafiq aconteça. As Forças Armadas estão do lado do Shafiq.”

Murched não esperava que Shafiq continuasse no pleito. Para ele, o podereconômico dos dirigentes do antigo governo, do qual Shafiq é candidato, é uma possível explicação: “Dos cinco que ficaram em primeiro na votação, eu achava que Shafiq seria o último. Achei que a votação ficaria polarizada entre Mohammed Mursi e Abul Futuh (islamista independente, ex-membro da Irmandade), ou qualquer um desses dois com o Amr Musa. Surpreendeu-me, por um lado, essa vitória, mas, por outro, há o poder econômico dos antigos dirigentes, das Forças Armadas. Dinheiro vindo do exterior com certeza teve uma influência muito grande nessa vitória.”

Uma preocupação no caso de uma vitória de Shafiq seria a posição da Junta Militar, que se encontra no poder, em relação à ascensão da Irmandade Muçulmana ao Governo. “De acordo com o exército, o poder será entregue totalmente ao Presidente da República eleito. Agora é difícil prever os acontecimentos, principalmente no que diz respeito a qual vai ser a postura da Irmandade Muçulmana em relação ao Tratado de Israel, se vai revê-lo ou não.”
 
A força dos jovens na Primavera árabe

Para Murched Taha, o papel da juventude egípcia será fundamental no pleito: “Antes os jovens se dividiram em alguns partidos, mas agora vão ter que perceber quem representa o perigo para a sua ‘primavera’. Eles vão ter que mobilizar a população.”

Taha é otimista em relação ao futuro da revolução nos países árabes: “Acho que a maior dificuldade é na Síria, mas isso não vai demorar. O governo não vai se sustentar por muito tempo, e a Primavera árabe vai continuar. É impossível governar nesse estado de caos em que se encontra a Síria”, ressalta. “Vai chegar um tempo em que a situação ficará insustentável do ponto de vista econômico, da infraestrutura. Ele se sustenta hoje por ter o apoio maciço do Iraque, da população libanesa, do Irã, da Rússia e da China. Mas essa situação não vai perdurar por muito tempo. A população da Síria, depois de 10, 12 mil mortos, de milhares de feridos e prisioneiros, não vai voltar atrás. Não vai aceitar essa ditadura novamente. São 43 anos de ditadura ‘pai e filho’, já basta para a população”, afirma o professor.
 


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ICArabeInstituto da Cultura árabe (da redação)

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