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Palestra e apresentações musicais árabes emocionam público na Biblioteca Mário de Andrade

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Fotos: Glauber Alves

No último sábado, 29 de janeiro, mais de 180 pessoas lotaram o auditório da Biblioteca Mário de Andrade, na capital paulista, para ouvir a diretora Cultural e Científica do ICArabe, Soraya Smaili, e o professor e sociólogo Oswaldo Truzzi faleram sobre os imigrantes árabes.

Após três anos fechada para restauro e modernização, a biblioteca foi reaberta para o público no dia 25 de janeiro, data do aniversário de 457 anos da cidade. Para comemorar, a prefeitura organizou uma programação especial que se estenderá pelos próximos meses e oferecerá como carro-chefe o ciclo “São Paulo: seus povos e suas músicas”, que celebrará a diversidade cultural da cidade de São Paulo por meio de encontros semanais que vão tratar dos diferentes grupos de imigrantes que compõem a cidade. Os encontros consistem de palestras de especialistas e apresentações musicais.

Truzzi é autor do livro “Patrícios – Sírios e Libaneses em São Paulo”, da editora Unesp, que conta os motivos que levaram os árabes a saírem de seus países, quem eram esses árabes, quais foram suas primeiras atividades na cidade e a trajetória de sucesso de muitos deles que se tornaram grandes empresários. Segundo ele, a influência árabe no Brasil parte de duas perspectivas, sendo a primeira por meio da colonização portuguesa. “A península Ibérica (Portugal e Espanha) foi, por quase de oito séculos, dominada pelos mouros. Obviamente houve, por muito tempo, uma intensa troca de informações e influências culturais entre aqueles povos”, contou o professor. Segundo ele, em 1492, quando os espanhóis conseguiram finalmente reconquistar Granada, a última cidade que ainda restava em poder dos árabes, Cristóvão Colombo descobriu a América e, oito anos depois, se daria a descoberta do Brasil. “Fica claro que os primeiros colonizadores que chegaram à América eram fortemente arabizados, trazendo interferências árabes na língua, arquitetura, artes, etc.”, afirmou Truzzi.

Soraya Smaili e Oswaldo Truzzi falam sobre os imigrantes árabes no Brasil

Soraya Smaili explica que por muitos anos a Europa tentou desconstruir a presença árabe em sua cultura. “A esse movimento, que mostrava os árabes como diferentes, atípicos, exóticos, Edward Said chamou de Orientalismo. Mas, recentemente já se tem provado que a influência é enorme”, disse.

A segunda forma de penetração árabe na cultura brasileira foi por meio da imigração em massa, fins do século 19, sendo a grande maioria vinda da Síria e Líbano, mas também sendo possível encontrar palestinos, egípcios, marroquinos, entre outras origens do Oriente Médio e Norte da África.

“Esses imigrantes se dedicaram principalmente ao comércio, e a cidade de São Paulo atuou como difusora de mascates por todo o Brasil, que levaram novidades da metrópole para os sertões. Num segundo estágio, esses comerciantes pararam de vender seus produtos de porta em porta e abriram lojas”, contou. De acordo com Truzzi, os árabes foram reconhecidos no país pela sua forma singular de fazer comércio, caracterizada como alegre, colorida e gesticulante. Com o tempo, os comerciantes foram enriquecendo e deixaram a Rua 25 de março e suas redondezas, onde inicialmente se estabeleceram na cidade de São Paulo, para ocuparem a Avenida Paulista, o Ipiranga, entre outras regiões. “Essa mobilidade sócioeconômica foi possível porque a primeira geração desses imigrantes entrou em massa no ramo das profissões liberais, sendo muitos deles já formados em seus países origem em universidades de elite”, colocou. O professor destacou que no início os imigrantes árabes sofreram preconceitos tanto de viés físico como cultural, mas com o tempo a comunidade se integrou. “A sociedade paulista influenciou os costumes desses imigrantes e vice-versa”.

Soraya ressaltou que apesar de a presença árabe no comércio ter sido muito importante, ela também foi significativa em outros ramos, como na literatura. “A habilidade dos árabes de contar histórias se refletiu na obra de Jorge Amado, Milton Hatoum, Alberto Mussa, entre outros”. Ela afirmou ainda que a literatura de cordel, típica do nordeste brasileiro também mantém fortes características da poesia árabe, que já existia desde antes do Islã. “Isso sem falar na influência na música brasileira, por meio de ritmos e instrumentos”, salientou.

Performance do Grupo Trivolim é acompanhada pelo Grupo Sami Bordokan e Anna Maria Kieffer

Apresentação musical

Após a palestra, o palco do auditório deu espaço à apresentação musical árabe do Grupo Sami Bordokan, composto por Sami Bordokan no laúde e canto, Cláudio Kairouz no kanoun e William Bordokan na percussão. Na sequência, a curadora do projeto “São Paulo: seus povos e suas músicas”, Anna Maria Kieffer, fez uma interpretação, acompanhada pelo grupo, da Cantiga de Santa Maria, com inserções de improvisações em árabe, mostrando a fusão entre cultura árabe e ibérica em canções medievais e modernas. Depois, a performace do pesquisador alagoano Eliezer Teixeira junto ao Grupo Trivolim, contagiou o público com seu trabalho em torno do guerreiro alagoano, tradição que recupera, em música e dança, as guerras entre mouros e cristãos.

 

Confira abaixo a programação completa do projeto “São Paulo: seus povos e suas músicas”

 

 05/fev - sábado -16h às 18h - Italianos
palestras de: Rosalba Fachinetti e Percival Tirapeli
apresentação musical: In terra lontana

12/fev - sábado - 15h às 17h - Russos
palestras de: Boris Schnairderman e Tatiana Belinky
apresentação musical: Cantos sacros e profanos

19/fev - sábado - 16h às 18h - Japoneses
palestras de: Jo Takahashi e Madalena Natsuko
apresentação musical: Tons de outono

26/fev - sábado - 16h às 18h - Germânicos
palestras de: Willi Bolle e Daniela Rothfuss
apresentação musical: Ecos do Reno e do Danúbio

12/mar - sábado - 16h às 18h - Húngaros
palestras de: Eva Piller e Anna Verônica Mautner
apresentação musical: Karikaso – danças cantadas

19/mar - sábado - 16h às 18h - Andinos
palestras de: Sidney Antonio da Silva e Jobana Moya
apresentação musical: Terras altas

26/mar
- sábado - 16h às 18h - Judeus
palestras de: Maria Luiza Tucci Carneiro e Boris Fausto
apresentação musical: Música judaica - Ashkenasi e Sefaradi

02/abr - sábado - 16h às 18h - Espanhóis
palestras de: Anna Tomé e Elena Pajaro Peres
apresentação musical: Recuerdos, lembranzas, lembranças

09/abr - sábado - 16h às 18h - Poloneses
palestras de: Edith Gross Hojda e Krystyna Kasperowicz
apresentação musical: Gritos das montanhas

16/abr
- sábado - 16h às 18h - Portugueses
palestras de: Antonio Claret e Sônia Maria de Freitas
apresentação musical: Cantas, danças e guitarradas

30/abr - sábado - 16h às 18h - Coreanos
palestras de: Yoo Na Kim e Maria Ruth Amaral de Sampaio
apresentação musical: Tradições Coreanas em São Paulo

07/mai - sábado - 16h às 18h - Africanos
palestras de: Maria Lúcia Montes e Salloma Salomão
apresentação musical: Comboio Atlântico

REALIZAÇÃO
Biblioteca Mário de Andrade e
Associação de Amigos e Patronos da Biblioteca Mário de Andrade

COPATROCÍNIO
Fundação Japão

APOIO CULTURAL
Teatro Municipal
Fritz Dobbert
Casa de Portugal
Istituto Italiano di Cultura
Instituto Martius-Staden
Goethe - Institut São Paulo
Centro Cultural da Espanha
Centro da Cultura Judaica
IPHAN
ICArabe

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Serviço

Biblioteca Mário de Andrade. Rua da Consolação, 94 – Centro. (Próximo das estações Anhangabaú e República do Metrô). Telefone de informações: 3256-5270.



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Ana Maria Barbour
Ana Maria Barbour
Ana Maria Barbour é jornalista e editora do ICArabe.

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