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Mulher

Na fila da cidadania

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Na fila da cidadania
Ativista pelos direitos da mulher diz que as sauditas cansaram de ser tratadas como ‘crianças irresponsáveis’
02 de outubro de 2011 | 8h 29
Carolina Rossetti
Wajeha Al-Huwaider é uma ativista da emancipação feminina no país com as leis mais restritivas às mulheres do mundo, a Arábia Saudita, onde elas não podem abrir conta em banco, aceitar emprego, assinar contrato de aluguel ou viajar sem a autorização de um homem. 
Mulheres aguardam do lado de fora de um cartório eleitoral em Riad   foto: Fayez Nureldine/AFP
A fundadora da Sociedade de Defesa dos Direitos da Mulher na Arábia Saudita comemorou o ato inédito do rei Abdullah de dar direito de voto às mulheres, mas insiste que é pouco. "Somos tratadas como crianças irresponsáveis. Todos os aspectos da vida são controlados. A exclusão do processo político é apenas o começo dos nossos problemas", disse ela, ao Aliás, por telefone, da cidade de Daharan, onde mora e trabalha na empresa de petróleo Aramco.
Wajeha ficou conhecida internacionalmente quando, em 2008, liderou uma campanha para anular o casamento de uma menina de 8 anos com um homem de 50. Ela fez um vídeo no YouTube denunciando a união, que foi parar na CNN. Em 2008, foi uma das primeiras a postar um vídeo em que aparece dirigindo. Nessa entrevista, ela explica por que o direito de conduzir se tornou a principal bandeira de luta das mulheres no país.
Wajeha foi criada numa família liberal saudita. Sua mãe era a única que deixava a filha andar de bicicleta, o que as amigas não podiam fazer, pois poderia "lhes custar a virgindade". Aos 7 anos, teve as pernas amarradas por uma professora e apanhou com um pau porque fugia para jogar futebol com os meninos. "Sempre fui a diferente, e continuo." Divorciou-se assim que o marido veio com a conversa de que queria uma segunda esposa. Há anos não usa preto nem cobre o rosto. "Sou a única que veste rosa por aqui. É para mostrar às sauditas que nossa vida pode ter muito mais cor".
Como repercutiu na Arábia Saudita o inédito direito de voto para as mulheres?
Foi um discurso bem feito pelo rei Abdullah e a notícia foi bem recebida por nós, mas é só uma promessa para 2015, o que é frustrante. Não sabemos nem se será cumprida. De toda forma, eleições na Arábia Saudita não são grande coisa, porque metade dos cargos é apontada pelo rei. Os conselheiros não têm poder de fato, não podem mudar leis ou sugerir políticas, apenas escrevem recomendações ao rei. Mas é assim que funciona a política na Arábia Saudita. O país não é do povo, é de uns poucos homens que nunca foram eleitos. O sufrágio universal é uma conquista importante, mas apenas o começo. Estranhei terem ressuscitado o caso de Shaima Ghassaniya dois dias depois do anúncio do voto. Pegou mal e o rei teve que intervir cancelando a sentença das chibatadas, o que, aliás, não é uma pena comum aqui.
Por que o direito de dirigir parece ser a principal causa de mobilização das sauditas?
Porque não há nenhuma lei que diga que não podemos dirigir, só o que nos impede é a tradição. Há uma fatwa, um pronunciamento religioso, que diz que mulheres não podem conduzir, mas em tese ela pode ou não ser seguida, quem decide é a família. Em 1991, 47 mulheres fizeram um protesto em Riad que repercutiu muito e durante um curto período elas puderam dirigir. No interior podemos dirigir, mas na cidade grande, não. Dirigir aqui é tão importante porque, sem isso, não podemos ir para a escola, para o trabalho, fazer compras. Nossas cidades são construídas de modo que o carro é muito necessário. Não temos um transporte público desenvolvido, então não podemos depender dos �?nibus, poucos e caindo aos pedaços. Resta-nos contratar motoristas, geralmente imigrantes da Índia, Sri Lanka e Indonésia dos quais nada sabemos. Somos obrigadas a aceitá-los em casa, conduzindo nossa vida. Eles exigem salários altos, moradia e seguro-saúde, tudo muito caro, p ois sabem que se forem embora a vida da mulher fica suspensa. Muitas têm que deixar o emprego porque não podem manter um motorista, ou pedir licença sem remuneração até conseguir outro. Somos obrigadas a depender de estranhos. Dirigir virou uma bandeira nossa porque, de todos os países do mundo, só na Arábia Saudita existe essa proibição.
Há protestos semelhantes em relação a outros direitos negados?
A "lei do guardião" é ainda pior porque não é só tradição, é uma medida oficial difícil de ser mudada. A saudita precisa ter um homem a tiracolo para tudo na vida. Sem um acompanhante, seja marido, filho ou pai, ela não pode conseguir emprego, ser aceita na escola, receber tratamento médico - nem em caso de emergência - viajar, alugar casa, comprar carro, abrir conta em banco, começar um negócio, nada. Todos os aspectos da nossa vida são controlados. Queremos ser cidadãs plenas, vistas como pessoas maduras, como os homens, mas nos tratam como crianças irresponsáveis. Nos últimos meses, mulheres têm protestado por mais emprego. Às vezes, grupos de jovens vão aos reitores de universidades exigir que sejam aceitas. Outras protestam pela libertação de prisioneiros, geralmente maridos ou filhos. Mulheres até vão à rua defender causas como essas, mas não para refutar a lei da guarda masculina.
O NYT informou que 58% dos universitários sauditas são mulheres. Qual é a participação delas no mercado de trabalho?
Mais mulheres do que homens têm diploma, especialmente bacharelado, na Arábia Saudita, mas o país tem a maior porcentagem de mulheres desempregadas do mundo. Alguns cargos são estritamente para homens, então elas nem podem se candidatar. E as empresas preferem contratar homens porque não têm que pagar tantos benefícios relacionados à maternidade. As famílias também não gostam de ver as filhas ou esposas trabalhando com homens e pressionam para que fiquem em casa.
De que maneira a Primavera Árabe está repercutindo em seu país?
Todos os amigos dos reis sauditas estão caindo e eles estão preocupados. Por isso mandaram forças militares ao Bahrein para tentar abafar o levante. Quando o presidente egípcio estava caindo, o rei Abdullah voltou do exterior, onde passava por tratamento médico, e tentou apaziguar os ânimos dos sauditas com dinheiro. Aumentou os salários dos funcionários públicos, especialmente da indústria do petróleo. E US$ 130 bilhões foram liberados para gastos públicos numa estratégia de calar o povo e ganhar tempo. Mas as pessoas estão se mobilizando no Facebook e criticando a realeza, pressionando para que ela reveja leis e dê mais oportunidades para os pobres melhorarem de vida. A imigração, atrelada ao desemprego, é motivo de grande insatisfação por aqui. Enquanto 8 milhões de trabalhadores na Arábia Saudita são estrangeiros, 28% dos homens não tem emprego porque é mais barato contratar um filipino que um saudita. Nosso país é de jovens, 60% da populaç ão tem menos de 25 anos, porque a taxa de natalidade é alta. Somo famílias grandes. Esses jovens precisam de escola, emprego, casa para começar a família. Hoje 80% dos sauditas vivem de aluguel pois não conseguem comprar um imóvel.
O rei Abdullah já tem 88 anos. Seu sucessor, o príncipe Sultan, de 87, está doente. O seguinte na linhagem é o príncipe Nayef, o mais conservador dos três. Que esperar do futuro do governo saudita?
O rei diz que vai viver mais 20 ou 30 anos, mas isso é sonho dele. É difícil prever qualquer coisa quando se trata da família real, eles são dissimulados. Quase ninguém houve mais falar do príncipe Sultan, internado há mais de três meses, mas a família toca o dia a dia como se tudo estivesse bem, business as usual. Muita gente está preocupada com Nayef e acha que teremos mais restrições quando ele assumir. Imagino que no começo ele vá fazer concessões e dar sinais de abertura. É assim que agem todos os reis sauditas no começo do reinado, dão presentes ao povo porque querem conquistar sua simpatia. Nayef comanda o Ministério do Interior, todas as polícias e forças de segurança estão sob seu comando e ele é da ala mais conservadora do governo.
Em um artigo, você diz que depois dos ataques nos EUA em 2001 o governo saudita ficou envergonhado do papel de seus cidadãos no atentado e, para melhorar a imagem do país, liberalizou um pouco. De que forma?
Tivemos avanços. Os jornais estão cheios de denúncias de corrupção, a imprensa pode criticar mais os ministros e questionar tradições. Isso era impensável há dez anos. Surgiram as primeiras apresentadoras de TV, âncoras de programas de política, mostrando o rosto. Antes, mulheres só podiam escrever para jornais e suas fotos não eram publicadas. Em termos de emprego, algumas ocupações antes restritas aos homens começam a ser abertas às mulheres. E as regras para a emissão de fatwas mudou. Antes, qualquer sacerdote podia emitir uma fatwa. Agora, um conselho de teólogos precisa examiná-las. Esse é um avanço menor, admito. Mas nesta década tivemos a primeira mulher ministra, Norah al-Faiz, da Educação. Mulheres também podem, em alguns casos, morar num apartamento alugado sem a permissão de um homem. Isso é muito importante, especialmente para vítimas de violência doméstica. O rei criou a universidade Rei Abdullah, a primeira e única onde mulhere s e homens podem estudar e trabalhar juntos. Portanto, algumas mudanças sutis estão ocorrendo, mas muito ainda precisa mudar.
O processo de divórcio foi simplificado?
A Corte Suprema já fez o pedido ao rei para revisar a lei do divórcio, mas até agora nada foi feito. A mulher precisa da autorização do pai para se separar. Já para o homem basta dizer "eu me divorcio de você" e pronto. Ou nem isso: pode mandar outra pessoa avisar a mulher da separação. Quando elas se divorciam, quase sempre perdem a guarda dos filhos e a casa. O homem pode ter até quatro esposas, sem precondições, mesmo se for pobre e mal conseguir se sustentar. Elas são forçadas a uma vida de miséria. Mulheres não são identificadas quando vão ao tribunal, cobertas pelo véu. Quem valida sua identidade é o acompanhante e por isso acontecem muitos casos de fraude. Por exemplo, uma filha acaba de receber a herança do pai. O irmão leva uma mulher qualquer ao tribunal, diz que é a irmã e que ela está doando todo o dinheiro a ele. Os juízes não conferem a identidade da mulher porque é considerado vergonhoso ver o rosto de uma desconhecida, e os tribu nais não contratam funcionárias para conferir quem está debaixo daquele pano.
Você foi muito ativa para anular o casamento de uma menina de 8 anos com um homem de 50. Casos como esses são comuns?
São cada vez mais raros. Certamente acontecem no interior e em comunidades mais religiosas, mas não ficamos sabendo. Estamos militando pela a aprovação de uma lei que fixe uma idade mínima para o casamento. Nesse caso que você mencionou, a mãe da garota foi crucial para conseguir o divórcio da filha. Ela batalhou muito, foi aos jornais e contou a história. Foi assim que nós, da Sociedade de Defesa dos Direitos da Mulher, ficamos sabemos e pudemos ajudar, promovendo uma campanha internacional. Essa mãe tinha acabado de se divorciar. É comum que casos de casamento de crianças estejam associados ao divórcio dos pais. O homem fica com a guarda das crianças e se desfaz das filhas em uniões arranjadas. Alguns até as vendem.
É forte a participação das mulheres no movimento pela emancipação feminina?
Está melhorando. Antes, quando eu conversava com as mulheres sobre nossos direitos elas diziam que eu estava errada, a vida delas era confortável, estava tudo ok. Agora, a consciência de que estamos sendo diminuídas, desumanizadas e exploradas é maior. O melhor nível de educação das mulheres e a internet ajudaram muito. Elas estão por aí, organizando-se pelo Facebook, esperando a hora de serem ouvidas.
O véu que cobre o rosto da mulher é obrigatório em todas as ocasiões?
Nas escolas e nas repartições públicas, sim. Mas nos shoppings ou na rua, não. Antes, há talvez uns dez anos, era proibido por lei andar sem véu. Hoje são as famílias que decidem. Como os sauditas são conservadores, quase todas cobrem o rosto. Tomo a mim mesma como medida e digo: elas não estão felizes. Este é um dos países mais quentes do mundo, 38°C todo dia. Roupa preta não faz o menor sentido. Os homens só andam de branco, o que é mais adequado ao clima. A maioria das mulheres é forçada a se cobrir. Minha irmã é uma delas, seu marido exige. Há anos eu não uso mais preto ou cubro o rosto. Quando vou ao shopping, sou a única mulher de rosa ou branco. Sempre fui a diferente e continuo assim. Quero mostrar às mulheres que nossa vida pode ter muito mais cor.

Ativista pelos direitos da mulher diz que as sauditas cansaram de ser tratadas como ‘crianças irresponsáveis’.

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Participação das mulheres nas revoltas populares árabes é fundamental

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Soraya Smaili, diretora Cultural e Científica do ICArabe ressalta a importância das mulheres na organização das manifestações que culminaram na queda do regime de Hosni Mubarak no Egito. 

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Mulheres assumem o volante na Arábia Saudita

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Mulheres assumem o volante na Arábia Saudita
(AFP) – há 3 dias
RIAD — As sauditas atenderam timidamente nesta sexta-feira à convocação feita por militantes para desafiar a proibição de dirigir imposta às mulheres, assumindo o volante nas cidades do reino sem incidentes maiores.
Segundo os organizadores da campanha Women2drive, 42 mulheres no total enfrentaram a proibição, e apenas uma delas cometeu uma infração, enquanto outras duas foram escoltadas para suas casas por agentes da polícia.
Mas nenhuma prisão foi registrada, o que parece ser uma indicação da disposição das autoridades de não se oporem com o uso da força a esse movimento no reino ultraconservador, único país do mundo onde as mulheres não têm o direito de dirigir.
Os correspondentes e fotógrafos da AFP não viram mulheres dirigindo, mas vários testemunhos foram difundidos nas redes sociais, incluindo vídeos de mulheres ao volante no Youtube.
"Voltamos do supermercado. Minha mulher decidiu começar o dia pegando no volante na ida e na volta", escreveu em sua conta no microblog Twitter Tawfiq Alsaif, um editorialista.
"É um direito das mulheres que nenhuma lei, nenhuma religião proíbe (...) Eu saí para obter meu direito" de dirigir, declarou à AFP Maha al-Qahtani, que dirigiu pelas ruas de Riad durante 45 minutos.
Seu marido Mohammad al-Qahtani, presidente da Associação saudita dos Direitos Civis e Políticos, que a acompanhou, indicou no Twitter que ela estava "preparada para ir para a prisão sem medo".
Azza al-Chamassi, uma empresária de Riad e mãe de três filhos, declarou à AFP que assumiu o volante na capital sem ser importunada pela polícia, mobilizada nas principais vias da cidade.
"Levei minhas duas gêmeas, de seis anos, e comprei doces para elas", disse. "Tive medo, mas se todas as mulheres começarem a dirigir, ficarei tranquila", disse.
A campanha Women2drive, iniciada há dois meses nas redes sociais, deve continuar "até a publicação de um decreto real que autorize as mulheres a dirigir", destacou a página dos organizadores no Facebook.
As mulheres são chamadas a agir individualmente, ao contrário de uma carreata celebrada em 1990, na qual as participantes foram detidas.
O ícone da campanha desta sexta-feira foi Manal al Sharif, uma jovem especialista em informática, libertada em 30 de maio após ter permanecido detida por duas semanas por ter desafiado a proibição de dirigir e publicar no site Youtube um vídeo no qual aparecia ao volante.
Em um comunicado, a Anistia Internacional pediu às autoridades que "parem de tratas as mulheres como cidadãos de segunda classe e abram as vias do reino às motoristas".
"Não permitir que as mulheres assumam o volante é um imenso entrave a sua liberdade de movimento e limita sua capacidade de realizar suas atividades cotidianas, como ir ao supermercado ou levar seus filhos à escola", acrescentou a ONG.
Nenhuma lei proíbe as mulheres de dirigir. No entanto, as autoridades se fundamentam em um pronunciamento religioso (fatwa), promulgado no reino, cujas leis são inspiradas em uma interpretação rigorosa do Islã, e invocam a oposição dos religiosos e dos meios conservadores para manter a proibição.
Para se deslocar, as mulheres sauditas precisam contratar um motorista e, se não tiverem recursos, dependem da boa vontade dos homens da família.

As sauditas atenderam timidamente na sexta-feira, 17/6, à convocação feita por militantes para desafiar a proibição de dirigir imposta às mulheres, assumindo o volante nas cidades sem incidentes.

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Luci Mansur lança livro “Solidão-Solitude: passagens femininas do estado civil ao território da alma”

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Publicado pela EDUSP, o trabalho busca compreender os sentidos sociais e emocionais da experiência feminina de viver só conjugalmente no ocidente contemporâneo
A partir de pesquisas voltadas aos novos modos de subjetivação femininos, busco compreender fenômenos atuais pouco investigados academicamente, dando voz às mulheres implicadas nesses processos. Como a cidade de São Paulo abriga filhas de imigrantes diversos, na constituição polifônica dessas investigações também contei com significativos relatos de mulheres descendentes de árabes. 
    
 Lançado recentemente pela EDUSP, “Solidão-Solitude: passagens femininas do estado civil ao território da alma” é um trabalho que busca compreender os sentidos sociais e emocionais da experiência feminina de viver só conjugalmente no ocidente contemporâneo, aproximando-se do extenso campo das relações entre homens e mulheres e da complexa constituição do feminino e do masculino, ao longo do tempo. 
 Resultado de pesquisa interdisciplinar para doutoramento no IPUSP, esse trabalho oferece o fecundo encontro entre as mulheres entrevistadas e os autores selecionados, contrapondo dialogicamente narrativas pessoais e textos das ciências humanas e sociais. Sob perspectiva teórico-metodológica de inspiração bakhtiniana (ética, estética e epistemológica), promove  a reunião de conhecimentos históricos, demográficos, sociológicos e psicanalíticos com o saber poético. Percorre um caminho singular que se estende da externalidade do mundo para a interioridade da vida emocional, atravessando a superfície de certos registros sócio-históricos até alcançar a profundeza dos domínios da alma.
Nesse estudo, a solidão não se refere apenas à situação objetiva de privação da companhia de alguém, mas ao fato de se sentir solitário, mesmo na presença de outros: uma experiência negativa e angustiante, em que prevalecem sentimentos de vazio, de desespero e abandono, causados pela ausência ou perda da presença simbólica do outro, na interioridade de si.   
Por outro lado, temos a solidão positiva, ou solitude, que expressa a conquista da possibilidade de ficar só de um modo sereno, confiante e criativo. Trata-se de estar sozinho e, paradoxalmente, muito bem acompanhado, porque o outro está sempre presente dentro de si (ainda que ausente concretamente). E essa importante aquisição, segundo hipóteses psicanalíticas, depende da sustentação emocional ofertada ao bebê desde sua chegada ao mundo e também das oportunidades e experiências culturais oferecidas pela família e pela sociedade, ao longo da vida de todo ser humano. 
Podemos, portanto, avaliar a solitude como uma conquista humana. Essa solidão positiva, ficar só e em boa companhia, em suas complexas injunções psíquicas e sociais, embora ainda seja pouco reconhecida e valorizada culturalmente, nos permite concluir que assim como as relações interpessoais, também o silêncio e a quietude se revelam mestres de uma vida plena e criativa, conectada com as profundezas da alma, do corpo e do mundo que nos rodeia. 
 Luci Helena Baraldo Mansur - membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, mestre e doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo, autora do livro “Sem filhos: a mulher singular no plural”, Editora Casa do Psicólogo.                                                           

Publicado pela EDUSP, o trabalho busca compreender os sentidos sociais e emocionais da experiência feminina de viver só conjugalmente no ocidente contemporâneo.

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A primavera também é das mulheres árabes

Como parte do pensamento orientalista, a mulher árabe foi representada como um ser inferior e exótico; portanto, há mitos a serem desfeitos.

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"Opressão à mulher árabe tem origens mais profundas e de classe"

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Analisar o papel da mulher nas recentes revoltas árabes, com base no resgate histórico do processo de “ocidentação” dessa cultura, que envolve desde a partilha do mundo árabe em 22 diferentes países até a imposição de ditadores aliados para garantir a exploração do petróleo. Esta é a proposta da diretora cultural e científica do Instituto da Cultura Árabe - ICArabe, Soraya Smaili, em entrevista concedida ao Informandes Online. De acordo com ela, é preciso se despir de preconceitos fomentados pelo ocidente para compreender bem como se dá a opressão à mulher no mundo árabe. “Como em outras situações históricas, em uma sociedade repressora, os mais profundamente afetados são as mulheres, crianças e idosos. Eles são alvos centrais, pois o regime é muito mais danoso aos que têm menos recursos físicos ou sociais”, argumenta.
A diretora acrescenta que é preciso considerar sempre que o mundo árabe é bastante diversificado, com realidades mais ou menos favoráveis à mulher nos diferentes países. Entretanto, mesmo nos países em que a mulher parece sofrer maior opressão, a condição para sua liberdade está bastante relacionada à classe social a que pertence. Mesmo na Arábia Saudita, considerada a pior ditadura do mundo árabe, as mulheres da realeza têm direito de viajar e estudar, enquanto as demais sofrem todo tipo de restrição de liberdade. “A opressão à mulher tem origens mais profundas e de classe”, resume ela.
Soraya Smaili, graduada pela Universidade de São Paulo, obteve Mestrado, Doutorado e Livre-Docência na Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo e fez estudos de pós-doutorado no National Institutes of Health. É vice-presidente da Adunifesp-SSind, diretora regional do ANDES-SN e diretora cultural e científica do Instituto da Cultura Árabe - ICArabe (www.icarabe.org).
Confira a entrevista na íntegra:
 
Qual o papel das mulheres nas recentes mobilizações por democracia que, desde o final de 2010, têm sacudido o mundo árabe?
Embora a mídia em geral não tenha destacado ou mesmo analisado, o papel da mulher árabe nos recentes levantes ocorridos, a sua presença e participação têm sido e são fundamentais. A visão que o Ocidente tem da mulher árabe é de uma pessoa submissa ao extremo, sem educação formal e sem profissão. Muitas vezes acredita-se que os árabes e, consequentemente, as mulheres árabes são atrasadas e ignorantes. Isso faz parte de um imaginário criado cuja base ideológica está no pensamento Orientalista. O Orientalismo, iniciado como corrente de pensamento no século XIX, se desenvolveu plenamente no século XX e tratou de apresentar os árabes como seres exóticos, diferentes, inflamados, temperamentais, ignorantes e atrasados. Ou seja, seres que eram diferentes dos homens e mulheres do Ocidente, ditos civilizados. Este Ocidente tratou de mistificar e discriminar esse povo apresentando-o como um “não-povo”, o que deu sustentação à colonização e partilha do Mundo Árabe em 22 países com fronteiras artificiais e à exploração brutal de petróleo tão necessário ao Ocidente. Uma análise sobre esse contexto do século XX foi feita de maneira clara e aprofundada por Edward Said em seu livro Orientalismo.
A mulher, neste cenário, sofreu as consequências das políticas implantadas para o Mundo Árabe, e como parte do pensamento Orientalista, também foi apresentada como um ser inferior. Somada às questões femininas primordiais, o Orientalismo reforçou a opressão e criou profundos esteriótipos para a mulher árabe, tendo sido escandalosamente ridicularizada. No entanto, do ponto de vista histórico, a mulher árabe desempenhou papel fundamental na base da organização social e impediu que uma maior degeneração social ocorresse durante a implantação dos colonizadores.
As revoltas no Mundo Árabe de hoje devem ser vistas a partir de uma análise da ocupação e colonização (Ocidentação) e da partilha dos árabes como povo em vários países, da imposição de didatores aliados para o controle da região e da exploração brutal de Petróleo.  Aos longo de algumas décadas, os ditadores do Mundo Árabe trataram de controlar com mão de ferro, opressão e pobreza, a organização social que existia, impedindo e massacrando a possibilidade de desenvolvimento. Portanto, o levante árabe que o mundo está assistindo neste momento é um movimento por direitos universais, pelo fim da opressão, pelo direito à manifestação, pelo direito ao trabalho e a dignidade. É um movimento popular e, neste contexto, o movimento de mulheres está presente, participa e se insere plenamente.
Com algumas diferenças regionais, as mulheres e os movimentos feministas locais têm tido participação fundamental nos levantes populares. No Egito e Tunísia, organizaram manifestações específicas, chamaram as mulheres às ruas, clamaram e se organizaram na luta pela democracia. Na Tunísia existem organizações importantes de mulheres que marcharam contra o ditador Bin Ali. Logo após a sua queda, elas se organizaram em comitês e reivindicam que o estabelecimento do estado democrático passa também pela conquista dos direitos das mulheres. Depois disso, estabeleceu-se lá um Comite especial para reivindicar os direitos das Mulheres Tunisianas na transição democrática.
No Egito, as mulheres marcharam, convocaram e organizaram grandes manifestações e entraram diretamente nos confrontos. As TVs do mundo exibiram imagens marcantes de mulheres de todos os tipos clamando por democracia e pelo fim da ditadura Mubarak, para espanto geral do Ocidente. Criaram o movimento chamado “As Mulheres da Praça Tahrir”, que reuniu centenas de ativistas, dentre estas, algumas feministas históricas, como Nawal Al Saadawi. Isso mostrou uma faceta do Mundo Árabe que estava obscurecida pela visão orientalista, ou seja, apresentou os movimentos seculares e boa parte deles compostos de mulheres intelectualizadas. E também vimos as mais jovens atuando na organização por meio da internet e utilizando ferramentas de comunicação chamadas modernas. Mais uma vez, desfazendo a idéia de que as mulheres não teriam acesso ou não saberiam utilizar tais recursos.
Porém, existe uma grande diversidade no Mundo Árabe e o papel das mulheres em alguns outros locais, como no Iemen, talvez não esteja tão evidente.  Mas é preciso lembrar que em alguns locais, os regimes ditatoriais foram ou são muito mais opressores para a população em geral, como ocorre na Líbia, no Iemen e em outros locais. De maneira geral, as mulheres têm tido grande destaque e são protagonistas dos movimentos, manifestações e atuam fortemente pela democracia, mesmo que isso nem sempre seja noticiado ou que esteja aparente para a mídia internacional. Portanto, é errada a idéia de que as mulheres árabes não participam, são alienadas ou reprimidas. Elas têm a consciência dos seus direitos e lutam por eles, como as mulheres do mundo.
A questão de gênero está pautada nesta revolução em curso? De que forma?
Sim, certamente. Como explicado anteriormente, os levantes populares devem ser vistos pelo prisma de um movimento pós-colonial e contra a implantação artificial de opressores e ditadores que foram impostos para controlar as manifestações da população árabe em geral. Esse povo foi colonizado por algumas décadas e depois controlado com mão de ferro pelas décadas seguintes. É um povo sedento por liberdade e pelo exercício dos seus direitos e dignidade. Portanto, todas as questões que dizem respeito às liberdades e aos direitos universais estão pautadas. A questão da mulher, dos seus direitos inalienáveis, faz parte deste contexto.
A opressão da mulher é maior no mundo árabe? Por quê?
Essa é uma pergunta bastante interessante, mas não dá para responder com um “sim” ou um “não”. Na verdade, podemos dizer que sim e que não. O Mundo Árabe é bastante diverso, são 22 países que vão da Península Arábica e se estendem a todo o Norte da África. Há questões culturais regionais importantes e que precisam ser consideradas. Há locais em que a mulher não tem direito ao voto, não tem direito à manifestação e várias outras coisas. É o que acontece na Arábia Saudita. Mas, novamente é preciso considerar o contexto social e político. Nesse país, os homens também têm liberdades muito restritas, se comparados aos outros homens do mundo. Não é possível a livre manifestação de qualquer tipo, pois se trata de uma ditadura absoluta. Ou seja, homens e mulheres são reprimidos, porém, como em outras situações históricas, em uma sociedade repressora, os mais profundamente afetados são as mulheres, crianças e idosos. Eles são alvos centrais, pois o regime é muito mais danoso aos que têm menos recursos físicos ou sociais. Ainda na Árabia Saudita, a liberdade também depende da classe social, pois mulheres e homens da família real têm acesso à educação e recursos ilimitados. Há mulheres da realeza que pilotam aviões, que estudam, que viajam. Portanto, a opressão à mulher tem origens mais profundas e de classe.
Por outro lado, há outros locais em que as mulheres têm acesso à educação, trabalho e liberdade de expressão, como no Líbano e na Palestina, e as questões femininas que vivem são semelhantes às que as mulheres ocidentais enfrentam. Porém, no mundo árabe, há outros valores que o Ocidente não leva em consideração, mas que são valores humanos, como a dignidade e o respeito à mulher. Por exemplo, existe uma impressão generalizada de que todas as mulheres árabes são muçulmanas e usam o lenço (hijab). Não é verdade que todos os árabes sejam muçulmanos e também não é verdade que todas as mulheres sejam obrigadas a usar lenço, nem mesmo as muçulmanas. Existe a idéia de que as muçulmanas são reprimidas e obrigadas a usar o hijab, quando na verdade, em boa parte dos casos trata-se de uma opção pessoal. No Líbano, Síria e Egito, por exemplo, as mulheres não são obrigadas a cobrir os cabelos e muitas muçulmanas cobrem por opção, porque faz parte dos costumes e da cultura. Em vários locais, como no Líbano e Tunísia, uma boa parte das muçulmanas não quer e não são obrigadas a se cobrir. Por terem a opção de usar o lenço, as mulheres árabes se sentem respeitadas, pois é um direito. Ao contrário do que ocorre em alguns países do Ocidente civilizado, onde as muçulmanas foram impedidas do seu direito de utilizar o hijab, o que é extremamente autoritário.
Qual o papel da religião no processo de opressão da mulher?
Inicialmente, é preciso salientar novamente que nem todas as mulheres árabes são muçulmanas. No Egito, por exemplo, uma parte da população é cristã copta. No Líbano, há católicos de várias igrejas e também judeus. Além disso, é preciso fazer uma distinção entre os países onde o Estado é teocrático, como na Arábia Saudita e Iêmen. Neste caso, a religião é usada para a opressão, embora a religião muçulmana, em seus preceitos fundamentais, não prega a opressão ou retirada de direitos. Ao contrário, no momento da fundação do Islã, as mulheres eram fortemente oprimidas em uma sociedade tribal. O Islã, como filosofia, trouxe a regulamentação de direitos femininos, como o acesso à educação e participação na expansão da civilização islâmica do século VII ao XIII. Portanto, é preciso separar o Islã da religião islâmica.
A religião, como outras doutrinas, sofreu adaptações e regionalizações e foi implementada de acordo com os costumes locais, sendo utilizada como instrumento de controle ideológico. Além disso, em muitos lugares onde chegou, se deparou com costumes tribais (não só na Península Arábica, mas também no Norte da África e Oriente). Por isso, hoje, em vários países de maioria muçulmana, são perpetrados costumes tribais que não têm a menor fundamentação religiosa, como por exemplo, a mutilação de órgãos genitais que ocorre em regiões da África (muçulmana ou não). O Islã proibiu fortemente essa prática, mas ela tem sido divulgada como uma prática muçulmana, mas na verdade é uma prática tribal, exercida por comunidades não muçulmanas também. A maior parte das práticas opressivas à mulher e que ocorrem em países árabes se deve mais aos costumes regionais ou às distorções criadas por fundamentalistas religiosos, que existem em todas as religiões, do que propriamente por conceitos do Islã.
Os países árabes também têm a tradição de comemorar o Dia Internacional da Mulher?
Sim. Há movimentos muito fortes e sérios no mundo árabe e as mulheres estão organizadas e concatenadas com outros movimentos feministas do mundo inteiro. Há inúmeras organizações em diversos países e há uma corrente feminista que irmana as mulheres árabes entre elas (já que estão distribuídas em diferentes regiões) e com as mulheres de todo mundo. Neste sentido, as mulheres árabes estão muito mais avançadas e há muito participam da internacionalização dos movimentos sociais universais, que incluem o movimento feminista.

Analisar o papel da mulher nas recentes revoltas árabes, com base no resgate histórico do processo de “ocidentalização” dessa cultura, que envolve desde a partilha do mundo árabe em 22 diferentes países até a imposição de ditadores aliados para garantir a exploração do petróleo. Esta é a proposta da diretora cultural e científica do Instituto da Cultura Árabe - ICArabe, Soraya Smaili, em entrevista concedida ao Informandes Online. 

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Data: 
03/12/2010 - 19:00

DEBATEDORAS

DRA. FABÍOLA MARQUES
Advogada; Conselheira Secional e Presidente
da Comissão da Mulher Advogada da OAB SP.     

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Debate no Cinemulher esquenta programação da 5ª Mostra Mundo Árabe

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A atividade ocorreu no dia 11 de setembro, após a exibição do filme Dunia (Beije-me mas não nos olhos) e contou com a participação Soraya Smaili, diretora Cultural e Científica do ICArabe, e Daniela Auad, professora da Unifesp e especialista em educação e relações de gênero.

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Debate sobre a mulher no mundo árabe (5ª Mostra Mundo Árabe de Cinema) - São Paulo (SP)

Data: 
11/09/2010 - 20:00

Como parte da programação da 5ª Mostra Mundo Árabe de Cinema, ocorrerá um debate no Cinemulher, após a exibição do filme Dunia (Beije-me, mas não nos olhos), que será exibido às18h30. A atividade terá o objetivo de discutir a questão feminina no
mundo árabe e contará com a participação de Soraya Smaili, diretora Cultural e
Científica do ICArabe, e Daniela Auad, professora da Universidade

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