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Uma questão de justiça

Daniel Davidsohn
Daniel Davidsohn
Daniel Davidsohn é filho de judeus romenos que imigraram para o Brasil. Nascido em São Paulo em 1969, graduou-se e fez mestrado em hotelaria e turismo, dedicando-se à área até 2001, quando envolveu-se com cinema, publicidade, entre outras atividades. Recentemente ele entrou no mercado editorial e lançou o livro Do Nilo ao Eufrates. “É uma produção independente, que surgiu de um roteiro de filme que escrevi”, conta o autor. Agora, Daniel vem trabalhando para emplacar e divulgar a publicação. “As dificuldades os obstáculos neste ramo são enormes”, salienta.
Capa do livro "Do Nilo ao Eufrates", de Daniel Davidsohn - Pineal Editora, 2009

Em entrevista para o ICArabe, Daniel Davidsohn contou a origem da história de seu romance, suas experiências profissionais e sobre suas descobertas em relação ao conflito Israel-Palestina.

Qual é a história dos seus pais?
Meus pais são da Romênia e deixaram o país quando o comunismo chegou. Meu pai, quando saiu de lá, ficou preso em um campo de concentração britânico, em Chipre, onde conheceu minha mãe. Eles estavam segurando os imigrantes até que fosse estabelecido o Estado de Israel, pelo menos esta é a história que a gente ouve por aí. Em Israel ficaram cerca de cinco anos. Meu pai foi da Marinha. Lá eles começaram um negócio, minha mãe costurava, meu pai vendia. Depois resolveram ir para o Brasil.

A origem deles influenciou na ideia do romance?
A gente sempre acaba vendo os fatos um pouco com os olhos dos nossos familiares, mas este não foi o fator preponderante para a história do livro. Meus pais viveram a formação do Estado de Israel, foram influenciados pela narrativa que de que era um refúgio para o povo judeu, saído do holocausto. As fontes de informação e debate eram muito escassas, não se tinha muito acesso às contestações. Hoje temos como saber mais.

Por que eles vieram para o Brasil?
Não sei bem, acho que tinham um amigo aqui que disse que o povo brasileiro era amistoso, que o clima era bacana e que havia possibilidade de crescimento. Eles vieram na aventura. Chegaram em 1956, se não me engano. Se estabeleceram no centro, na Ladeira Porto Geral. Trabalhavam com confecção. Por meio deles, pude conhecer um pouco da cultura e do pensamento judaico, mas, apesar disto, me considero mais cristão.

Você disse que seu livro era um roteiro de filme?
Sim, era. Só que é um mercado dificílimo. Então, algumas pessoas me deram a ideia de tentar adaptá-lo e publicar como livro. Como não tinha experiência na área, fiquei um pouco reticente, mas resolvi arriscar já que, apesar de não ser um mercado fácil, é mais tangível do que o cinematográfico. Tenho encontrado muitas dificuldades e obstáculos e estou aprendendo tudo agora.

Qual é a história do livro?
É uma ficção que ocorre no nordeste brasileiro e que coloca frente a frente Rashid, um sobrevivente do massacre de Deir Yassin, e o filho de um militar israelense, participante do episódio. Para escrevê-la, me baseei num versículo bíblico, do velho testamento, que faz referência à região entre o Nilo e o Eufrates, como sendo a terra dos judeus. Existem alguns grupos em Israel que ainda sonham com a possibilidade de conquistar esta terra. Então acho que dá uma boa ficção. Mas também misturei outras coisas como o atentado de 11 de setembro, a questão do Irã e as armas nucleares, a hegemonia dos Estados Unidos na região, etc.

E você optou por uma produção independente?
Sim, do contrário teria que mandar a história para as editoras e ficar seis, oito meses esperando um resposta, se é que responderiam e que publicariam. Aí, resolvi publicar porque é um assunto que acho importante, que vale a pena.

Por que a história se passa no nordeste?
Porque sou brasileiro e porque nos orgulhamos de ser um país onde diferentes povos e culturas convivem bem. Eu quis fazer os personagens principais se encontrarem aqui e interagirem, debaterem o que aconteceu lá.

O que te motivou a contar esta história?
A minha curiosidade surgiu especialmente depois do episódio de 11 de setembro. Ali as coisas começaram a ficar muito estranhas. A história oficial até hoje não bate com as evidências, com o testemunho de pessoas. Mas eu diria que um ponto culminante foi a invasão do Líbano por Israel, em 2006. Começou a fazer sentido de que havia algo errado ali. Aquilo não podia ser a política de um Estado que se diz democrático. Aí aconteceu Gaza, agora em 2008, seguindo o mesmo padrão de ataque. Saber que existe um movimento que usa a religião e a fé das pessoas para perpetuar uma ocupação e para cometer crimes horrendos, foi o que me motivou a fazer esta história.

Você acha que as pessoas não conhecem a história do conflito Israel-Palestina?
A maioria das pessoas não conhece a origem do conflito, não conhecem o massacre de Deir yassin, nunca ouviram falar em Nakba. Eu nunca tinha ouvido falar. A grande imprensa do nosso país não mostra nem lembra estes fatos. E eles não foram e não são apenas detalhes. O Estado de Israel foi forjado por meio de ações militares criminosas. Nas minhas pesquisas eu descobri que nomes proeminentes da comunidade judaica como Albert Einstein e Hannah Arendt condenaram estas invasões. Por que a gente não sabe disto? Precisamos saber que existe um lado político ideológico extremista, que é o do governo, e o lado do povo judeu, que apesar dos traumas do holocausto, não concorda e se manifestou contra esses massacres das vilas árabes. Para mim foi uma descoberta e vi que muita gente não tem a menor ideia de que isto aconteceu.

Você acha que por meio da sua história é possível despertar o interesse do leitor para estes fatos
Eu espero conseguir transmitir minha experiência particular que é descobrir uma história que não foi e não é passada para nós. Existe uma questão de justiça muito forte. A comunidade internacional apoiou e amparou os judeus após a segunda guerra. Agora é a hora de voltar a atenção ao povo palestino, aos refugiados. Nós temos conhecer a história dos palestinos contada pelos palestinos. Eu espero que meu livro contribua para isto. Vejo que existe um preconceito, existe uma demonização do povo árabe pelas forças hegemônicas do mundo ocidental. Ainda bem que temos acesso às informações e a gente vai rompendo estes preconceitos.

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Ana Maria Barbour
Ana Maria Barbour
Ana Maria Barbour é jornalista e editora do ICArabe.

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